Conjuntando #30: O Texto Descritivo


Em uma das aulas de Literatura da minha faculdade, aconteceu um debate sobre livros com muitas páginas e livros com poucas páginas. A maioria defendia que livros grossos eram assim não pela história ser grande, mas porque o escritor infligia o leitor a passar por trechos muito descritivos. Foram citados Tolkien, George R.R. Martin, J.K Rowlings, Dan Brown, Jorge Amado e até Agatha Christie e Mark Twain. O professor ouviu a primeira parte calado e depois fez uma pergunta apenas: se eram assim, porque todos os autores citados eram extremamente famosos e suas obras admiradas no mundo todo, ao compasso que outros citados como pouco descritivos não chegavam perto da qualidade dos textos dos autores considerados “chatos”?

Foi aquela bagunça, todos falando ao mesmo tempo e arrumando justificativas.

Aí, o professor fez algumas observações e deu algumas dicas para quem pretendia seguir a carreira de crítico literário, ou escrever um livro, ou até mesmo ser jornalista.

Primeiro, ele deixou muito claro uma regra que não é sujeita a interpretação: texto descritivo não é um defeito, mas um estilo do autor. O fato de determinado leitor não gostar ou ter paciência para livros com trechos descritivos, é uma opção e não deve ser considerado como ponto negativo na avaliação da história como um todo. Seria injusto com a obra e com o autor. Se o leitor acha um determinado trecho do livro muito descritivo para seu gosto particular, basta pular o parágrafo. O contrário já não acontece.

Ele usou um ditado para ilustrar: é melhor pecar pelo excesso do que pela falta.

Depois, continuou com uma segunda lição: quando se escreve uma história com a descrição de uma ação, um pensamento, um local, uma pessoa, etc., o escritor deve lembrar que o leitor precisa receber informações suficientes para capturar a essência do que está sendo transmitido, como se ele estivesse presente ao lado do personagem na história.

Como assim?

Basta lembrar que o leitor precisa de estímulo para os cinco sentidos: visão, tato, paladar, olfato e audição. Ou seja, ele precisa visualizar o que está acontecendo, imaginar como seria o ambiente, o gosto do que é digerido, reconhecer o cheiro e conseguir determinar a diferença de vozes e sons onde ocorre a ação. Essa, disse o professor, é a experiência completa de se ler. Você vivencia as mesmas coisa que o personagem. E isso só é possível se o escritor descrever a cena.

Aí alguém perguntou: e quando isso não acontece? Quando o texto é pouco descritivo, ou nada descritivo?

Ele usou o exemplo do quadro. Um texto descritivo é como olhar para uma pintura, onde as palavras são a tinta. O contrário? Você recebe uma tela em branco e pronto!

Então, depois dessa loooonga apresentação, agora vou expor minha opinião pessoal. E como opinião, ela não é uma verdade, é apenas o que uma pessoa acha. No caso: eu.

Preciso confessar que fico incomodado com livros onde os diálogos são a maioria do conteúdo. Fico com a sensação de que os personagens interagem em um palco vazio, igual ao exemplo do quadro de meu professor. Não existe interatividade com o ambiente, e eu me perco no espaço da ação.

Por isso, peguei alguns exemplos para ilustrar as diferenças.
“O dia estava claro em Alta Granada, ensolarado e com um vento leve que fazia os cabelos dançarem. Como tantas outras cidades pequenas, suas ruas despertavam cedo. (...) Mesmo não muito contente com a hora, Amanda saiu de casa com a pasta do colégio debaixo do braço e desceu a rua batendo os pés. (...) Chegou à porta da casa de Bruno e sentou na calçada, esperando por ele. ”, Sábado à Noite, Babi Dewet, Generale.
No exemplo acima, a autora preferiu omitir qualquer descrição da cidade ou da rua onde a personagem estava. Fica totalmente a critério do leitor, que pode imaginar que é a sua rua, ou uma qualquer que ele já tenha visto.

Quando li Sete Minutos no Paraíso (Rafaella Vieira, Gutemberg), imaginei o bairro da personagem principal parecido com o meu, uma vez que ela não descrevia nada do ambiente. Mais para a frente, ela comenta que mora em Recife, no bairro de Boa Viagem. A coisa mudou completamente, porque eu conhecia a região. Quem não conhece, vai fazer uma ideia completamente diferente do que realmente é.
Bri era a aldeia mais importante daquela região, que era pequena e pouco habitada, semelhante a uma ilha cercada por terras desertas. (...) A aldeia de Bri tinha algumas centenas de casas de pedra que pertenciam às pessoas grandes, a maioria acima da Estrada, aninhando-se nas encostas das colinas, com janelas voltadas para o oeste. Naquele lado, descrevendo mais que um semicírculo, partindo da colina e voltando a ela, havia um fosso profundo, com uma cerca-viva espessa no lado interno. A Estrada cruzava esse fosso através de um passadiço, mas no ponto onde atingia a cerca-viva era barrada por um grande portal. Havia outro portal no canto sul, onde a Estrada saía da aldeia. ”, O Senhor dos Aneis, J.R.R. Tolkien, Martins Fontes.
Já aqui, Tolkien deixou claro o tipo de ambiente por onde os personagens iriam passar. A criatividade do leitor permanece, porque ele precisa imaginar todo o cenário, mas o autor ajuda estabelecendo os tipos de construções e usando de uma comparação facilmente identificável (uma ilha) para explicar o isolamento da aldeia.

Como J.K Rowlings conseguiria descrever o mundo fantástico de Harry Potter sem uma descrição detalhada de Hogwarts? Escreveria que a escola se parece com um castelo sombrio? ;>P

Isso quer dizer que o primeiro trecho é ruim?

Como meu professor disse, e eu concordo, claro que não! Foi uma opção da autora, apenas isso.
“Por quase meia hora perambulei pelos esconderijos daquele labirinto com cheiro de papel velho, pó e magia. Deixei que minha mão roçasse as avenidas de volumes expostos, numa tentativa de fazer a minha escolha. Percebi, entre os títulos apagados pelo tempo, palavras em línguas conhecidas e dezenas de outras que não podia reconhecer. Percorri corredores e galerias em espiral, repletos de milhares de volumes que pareciam saber mais a meu respeito do que eu sobre eles. (...) Peguei o livro com muito cuidado e folheei-o, deixando que as suas páginas esvoaçassem no ar. Liberado da sua cela na estante, o livro exalou uma nuvem de pó dourado. ”, A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón, Suma de Letras.
Zafón une o ambiente ao sentimento do personagem. Sim, a diferença é exatamente essa: além de imaginar, você sente!

Mas trechos descritivos não são apenas de lugares. Também são muito importantes na ação.
“Não sei o efeito que meu gesto inconsciente provocou nas pessoas. Não sei, porque não pude ver. Porém, eu soube exatamente a hora em que meu sequestrador foi rendido. Tudo indica que ele se distraiu comigo, e a polícia aproveitou para pegá-lo. Acho que ele acabou levando um tiro no pé, pois me soltou de uma vez, como se eu fosse um pedaço de chapa quente, impossível de segurar. E eu, totalmente desiquilibrada, cambaleei para a frente e caí no chão, sentada. Continuei cega, mas foi perceptível o movimento ao meu redor. Em instantes, a gritaria dos policiais revelou que o bandido havia sido capturado. ”, Azul da Cor do Mar, Marina Carvalho, Novas Páginas.
Nessa parte, não temos ideia e nem pistas do que aconteceu. Nós somos obrigados a fechar os olhos, da mesma forma que a personagem, e aceitar que a situação foi resolvida, sem qualquer vislumbre da ação.
“O homem-touro passou por mim a toda como um trem de carga, depois bramiu de frustração e se virou (...). O homem-touro roncou, escarvando o chão. Ficou olhando para minha mãe, que recuava lentamente colina abaixo, de volta para a estrada (...). Eu tive uma ideia – uma ideia boba, porém melhor do que não pensar em nada. Encostei as costas no grande pinheiro e agitei a capa vermelha na frente do homem-touro, pensando em pular fora do caminho no último momento. ”, Percy Jackson e Os Olimpianos, O Ladrão de Raios, Rick Riordan, Intrínseca.
Riordan transmite a ideia clara da ação, sem impedir que o leitor imagine todo o cenário da floresta, do perigo e do que os personagens estão fazendo. O que quero dizer é: um trecho descritivo não faz com que o leitor abandone sua criatividade, mas sim ajuda a montar o clima e a cena em que a ação se passa.

Em O Diabo Veste Prada, Lauren Weisberger precisa ser descritiva nos vestuários. Eles são praticamente um personagem. Não teria como simplesmente usar adjetivos para explicar o que cada um veste. O leitor precisa receber as informações para conseguir visualizar, do contrário as roupas seriam um reflexo do que o leitor conhece do dia a dia, e a menos que você seja um estilista, ficará longe, bem longe, do impacto que a autora queria transmitir.

Mais três exemplos para finalizar.
“O ar-condicionado do carro zunia. O dia estava quente e úmido. Um clima típico de agosto. Cruzamos a Ponte Milford, na altura do Parque Delaware Water Gap, e fomos recepcionados na Pensilvânia por um amistoso cobrador de pedágio. Dezesseis quilômetros adiante, vi numa pedra um aviso que dizia: LAGO CHARMAINE – PROPRIEDADE PARTICULAR. Entrei na estrada de terra. ”, Não Conte a Ninguém, Harlan Coben, Arqueiro.
“Arrependo-me de não ter prestado atenção aos sinais. Se eu pudesse imaginar que estes seriam os últimos dias da minha vida, ou melhor, da vida a que estava acostumada, faria alguma diferença? De uma coisa eu tinha certeza: eu deveria ter ficado em casa naquele dia e jamais ter colocado os pés naquela maldita praça. (...) Ao chegar em casa, o olhar de angústia nos olhos de minha mãe era evidente. ”, Não Pare!, FML Pepper.
“A Byron seria a nossa casa e o nosso refúgio enquanto estivéssemos na Terra. Era uma casa de arenito coberta de hera com a porta de entrada ao centro, dividindo os dois lados simetricamente. Erguia-se a uma boa distância da rua, atrás de uma cerca de ferro fundido e um portão de duas folhas, e tinha uma fachada georgiana elegante com um caminho de cascalho levando à porta principal descascada. O jardim da frente era dominado por um olmo majestoso envolvido por um emaranhado de hera. Ao longo da cerca lateral, uma profusão de hortênsias de tom pastel cobertas pela geada matinal. ”, Halo, Alexandra Adornetto, Agir.
Nos dois primeiros, não tenho ideia de onde se passa a ação. Somos obrigados a aceitar que deveríamos conhecer os lugares por onde os personagens passam. Me sinto frustrado quando isso acontece. No trecho de Coben, posso acessar o Google e tentar descobrir como é a ponte de Milford. No de Pepper, sem chance de qualquer reconhecimento. Usando o exemplo de meu professor, é como receber um quadro branco com a palavra praça escrita no meio. Já Adornetto, utiliza a descrição da casa como uma forma de refletir a beleza, a paz e a harmonia que os 3 anjos que chegam à Terra demonstram com a própria aparência.

Muitas vezes somos levados pela ânsia de chegar logo ao fim da história para descobrir o que acontece e perdemos a paciência por nos sentirmos presos a trechos descritivos. Não devemos nos esquecer que um livro é uma experiência que deve ser apreciada em respeito à sua própria leitura e ao que o autor quis transmitir com as palavras. Ao passarmos apenas pelos diálogos, deixamos de lado todo o resto que afeta os personagens. É como se assistíssemos a um filme onde apenas aparecem os rostos dos atores e suas conversas. De certa forma, você perde a referência e sua experiência deixa de ser completa.

O que acham? Concordando ou discordando, deixe sua opinião! ;>)

Carlos H. Barros
Carlos H. Barros

Carlos tem várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamenta o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco -, e não saber desenhar. Autor também do blog Gettub

7 comentários:

  1. Ola Carlos.
    Adorei as explicações sobre textos descritivos
    Confesso que gosto, mas não em demasia
    Beijinhos
    Rizia - Livroterapias

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  2. Diante da sua opinião eu me deparo com muitas desistências de amigas blogueiras por ai, eu sinceramente não consigo abandonar um livro, por mais que ele seja péssimo. Pô como vou ter uma opniao sobre algo se não tive a capacidade de ler tudo né?

    Beijos Joi Cardoso
    Estante Diagonal

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  3. oi Carlos,
    eu acho que um texto descritivo sempre é bom, tem gente que não gosta muito. Eu só não gosto do exagero, autor que descreve cada minusculo detalhes. Gosto de entender a ideia geral mas também deixo um pouco para minha imaginação. Gostei muito do modo como construiu seu texto e dos exemplos que usou.

    Para a Ju, eu postei hoje no blog minha caixinha de correio e citei seu blog por conta de um livro que comprei após ler uma resenha sua e amar!
    espero sua visita
    bjs

    Dudi
    http://dudikobayashi.blogspot.com.br/

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    1. Vlw :D!

      Se ainda não leu algum livro dos exemplos, leia sem medo... são todos bons! ;>)

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  4. Oie Carlos =)

    Eu gosto de textos descritivos, desde que a descrição agregue algo a história. O único livro que abandonei até hoje foi o Cinco dias em Paris da Danielle Steel por que ela levou um capitulo de aproximadamente quarenta páginas para dizer que o moço estava no aeroporto rs...

    Gosto quando o autor apesar de descrever alguns detalhes, deixa o resto por conta da minha imaginação, como é o caso do Tolkien e da J.K. Em minha opinião eles não pecam nem pelo excesso e nem pela falta. É perfeito <3!

    Ótimo texto, parabéns!

    Beijos;***

    Ane Reis.
    mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
    @mydearlibrary


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    1. Mas Ane, quem não fica preso em aeroportos? (nossa, que piada infame! O.O)

      Vlw!!! :>)

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  5. texto super inteligente e explicativo. gosto de textos descritivos mas não muito longos, até mesmo um autor firme na sua escrita, pode cansar a leitura. amei o texto!

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