Lola e o Garoto da Casa ao Lado - Stephanie Perkins

Sinopse: A designer-revelação Lola Nolan não acredita em moda… ela acredita em trajes. Quanto mais expressiva for a roupa - mais brilhante, mais divertida, mais selvagem - melhor. Mas apesar de o estilo de Lola ser ultrajante, ela é uma filha e amiga dedicada com grandes planos para o futuro. E tudo está muito perfeito (até mesmo com seu namorado roqueiro gostoso) até os gêmeos Bell, Calliope e Cricket, voltarem ao seu bairro. Quando Cricket - um inventor habilidoso - sai da sombra de sua irmã gêmea e volta para a vida de Lola, ela finalmente precisa conciliar uma vida de sentimentos pelo garoto da porta ao lado. (Skoob)
PERKINS, Stephanie. Lola e o Garoto da Casa ao Lado. Novo Conceito: 2012. 288 p.


Semana passada fiz a resenha de um livro direcionado para garotos. Aí fiquei meio que me sentindo culpado, uma vez que a audiência de blogs literários é majoritariamente feminina. Por isso, decidi falar sobre um livro direcionado para o público feminino. Mas qual? Naveguei por alguns blogs e acabei esbarrando em dois: Lola e o Garoto da Casa ao Lado, de Stephanie Perkins, e Amor em Jogo, de Simone Elkeles. Li os dois e acabei escolhendo o primeiro, porque ele se conecta de uma forma curiosa com o A Garota Que Eu Quero da semana passada, e que você pode ler clicando aqui.

Então... antes de começar, queria fazer uma brincadeira e pedir a ajuda de vocês para desvendar quatro enigmas que revi em Lola e o Garoto da Casa ao Lado:

1) O livro começa com Lola andando com sapatilhas de balé. Ela tudo bem, porque sua roupa é diferente de propósito. Mas já vi algumas garotas nos Shoppings de minha cidade usando sapatilhas de balé, com a ponta dura e quadrada, e vestindo roupas normais, como jeans e camiseta. Estranho demais...

2) Por que teimam em colocar adolescentes de 17 anos com cara de 25 nas capas dos Livros?

3) Qual a fixação em todo o triangulo amoroso ter um bad boy e um good guy? Mesmo a garota sabendo que o bad boy vai traí-la ou machucá-la, e o good guy vai ser seu amor verdadeiro?

4) Por que nós, homens, temos que dar o primeiro passo para paquerar uma garota?

Se puderem me explicar nos comentários... sem me xingar muito... :>/

Eu nunca havia lido nenhum livro de Stephanie Perkins, por isso não sabia bem o que esperar da narrativa. Mas fiquei surpreso logo no início, quando a autora descreve a cena em que Lola está dançando no quarto, de olhos fechados, ao som de uma música da banda de Max, seu namorado, e Cricket, sua antiga paixão que a abandonou dois anos atrás sem qualquer explicação, invade o quarto e fica de frente para ela. Foi uma forma criativa e emocionante de formar o triangulo amoroso.

Outro ponto que me surpreendeu foi como as roupas de Lola fazem parte da história. É um complemento do personagem, uma forma de demonstrar a personalidade e a mudança de humor de Lola. Ela usa as cores, os adereços, os sapatos, enfim, tudo o que veste como forma de confrontar a vida, os desafetos, os afetos, a mãe, os pais... é seu grito que avisa a quem ela é e o que está sentindo. Maneiro!

Por fim, a última surpresa foi o fato de como este livro completa A Garota Que Eu Quero, ou vice-versa. Em vários momentos reconheci Cameron em Cricket, e Octavia em Lola. Mas vou falar disso mais pra frente.

Vamos à resenha... que contém leve spoilers, mas, para que eu coloque minha opinião sobre a história, não tem como fugir deles. De qualquer forma, são poucos, pequenos, nenhum estraga a leitura e recomendo, MUITO, que leia o livro mesmo assim.

Formado o triangulo amoroso, é interessante acompanhar o confronto interno de Lola para rejeitar e se convencer de que não sente o que sente por Cricket. A mágoa por ter sido abandonada, sem explicação, por seu primeiro amor só não é maior do que o sentimento que pensou ter afogado no tempo. E quando, acidentalmente, ela coloca Max e Cricket frente a frente, sem este último saber que ela estava namorando, é compreensível o gosto de vingança que Lola sente momentaneamente, e logo depois a descoberta que essa mesma vingança não representa nada e nem a consola.

“Max coloca um braço em volta de meus ombros. É provável que o gesto pareça casual a Cricket, mas os músculos de Max estão tensos. Ele está com ciúmes. O pensamento deveria me deixar feliz, mas só tenho olhos para o constrangimento de Cricket. Gostaria de não estar nem aí para o que ele pensa. Isso quer dizer que estamos quites? Essa é a sensação de estar quite? (...) Eu não quero olhar para trás, mas não consigo evitar. Ele está me olhando. Olhando através de mim. Pela primeira vez na vida, Cricket Bell parece pequeno. Ele está desaparecendo bem diante de meus olhos.”

Lola é filha adotiva de Nathan e Andy, porque a mãe biológica dela, Norah, era uma moradora de rua até alguns anos atrás e vivia bêbada ou drogada. Exatamente por serem dois homens (mesmo que homossexuais), eles não aprovam o namoro de Lola com Max, porque este tem 22 anos, 5 anos mais velho do que Lola. E Nathan e Andy sabem perfeitamente como homens se comportam quando estão com meninas lindas como a filha deles. Ainda mais ele tendo uma banda e tocando em bares noturnos.

Uma pausa. Abre parêntese:

Qual o problema da idade de Max? Lola tem 17 anos. Max, 22 anos. É tão difícil assim esperar um ano? A forma como o relacionamento dos dois é tratado por todos, parece que a diferença é gigante e vai ser gigante para sempre. Não é verdade. Cinco anos pode ter algum significado se ela tivesse 14 e ele 19. Mas depois dos 20, 20 ou 25 dá no mesmo.

Fecha parêntese. Continuando...

Lola também precisa lidar com Calliope, a irmã possessiva de Cricket. Ela não gosta de repartir o irmão com ninguém, ainda mais com alguém que ela sabe que poderá ferir o coração dele, como realmente acontece e como Lola reconhece lá para o fim do livro. No início achei Calliope extremamente chata, mas aos poucos fui compreendendo seus motivos e até concordando com algumas de suas atitudes.

Temos outros personagens, como Lindsey, a melhor amiga de Lola, e Anna e seu namorado Étienne St. Clair. Estes dois últimos são personagens de outro livro da autora, que eu não li, mas que fiquei sabendo tratar-se de um romance bem parecido.

Todos eles são interessantes, carismáticos e tem sua importância no desenrolar dos acontecimentos, mas eu quero mesmo me debruçar sobre o trio central.

Então, deixa eu começar por Max. Lola não merece o Max. Ela usa o cara como um troféu que pode exibir, uma massagem no ego, e idealiza uma relação com ele que ela mesma não acredita e não quer.

“É constrangedor admitir, mas, sempre que Max e eu saímos juntos, eu quero prolongar mais o passeio, estender mais a caminhada, falar mais alto, só para que mais pessoas nos vejam juntos. Quero topar com todos os colegas de classe que sempre implicaram comigo por usar sapatos de elfo e bico fino ou mocassins de contas, porque sei que eles darão uma olhada em Max e suas sobrancelhas escuras, braços tatuados e jeitão de mau e saberão de cara que eu estou fazendo alguma coisa certa. Em geral, quase não me aguento de tanto orgulho.”

Ele é a fantasia de que ela será famosa, que terá uma vida glamorosa do seu jeito, como se junto com Max pudesse ser uma boneca admirada e invejada.

“Penso nas doces canções que ele compôs, as que ele toca em seu apartamento, as que são só para meus ouvidos. Penso em nosso futuro, quando eu não for mais atada a meus pais. Figurinos de dia, clubes de rock à noite. Nós dois seremos um sucesso e deveremos isso um ao outro. Nosso amor deveria fazer de nós um sucesso. Max beija meu pescoço. Meu queixo. Meus lábios. Seus beijos são ávidos e possessivos. Max é o cara. A gente se ama, então, ele tem que ser o cara. (..) No entanto o gosto em meus lábios é de medo. O gosto de mais uma mentira.”

Quando ela pensa no que Max sente, é apenas quando tenta esconder o que ela própria sente por Cricket. Responde aos questionamentos dele com mentiras, atuando como se fosse absurdo o ciúme dele, quando ele tem toda a razão para tê-lo, e ainda se finge de indignada pelos questionamentos. Lola não mente apenas para Max. Ela insiste em mentir para ela mesma ao dizer que só deseja ser amiga de Cricket. Ela arruma desculpas para essas mentiras acusando Max de ser ciumento, mesmo sendo ela a culpada desse ciúme. Ela sabe que está errada, sabe que está arrastando a paixão de Max, mas mesmo assim deixa. E sim, é uma paixão, porque ela nunca o amou. Amar está bem longe do que ela faz com ele. E é justo quando ele retorna de uma viagem, depois de uma briga com Lola, e deixa claro que ela nunca foi uma mulher de verdade e sim uma garotinha que não se conhece e que o traiu.

“— Onde esteve no último mês? Eu liguei. Queria falar com você. 
— Estava com uma pessoa. 
— Onde? 
— Santa Mônica. — Há algo no modo como ele diz isso. Como se quisesse que eu perguntasse. 
— Uma... garota? 
— Uma mulher. E eu dormi com ela. 
Max bate a porta.”

Compreendo quando uma garota se sente dividida entre dois caras, mas é errado quando ela sabe a resposta e teima em brincar com os dois por capricho. Ela quer Max por ele ser popular, bonito, descolado, o cara que todos invejam, mesmo ele não gostando de seus pais, de seus amigos e até da forma como ela se veste, mas isso é o que ele é, e ela sabe disso desde o dia em que o conheceu. E Lola também quer Cricket, por ser seu amor, o cara que a faz ser quem realmente é, em quem pode confiar, de quem todos gostam, por acreditar e saber que será seu para sempre. Mas ela precisa abrir mão de um deles e não quer.

Por quê? Porque é mimada e egoísta.

Cricket? Lola não merece Cricket! Tudo bem, ele nunca teve atitude de assumir o que sentia por ela. E quando conseguiu reunir coragem suficiente, foi embora sem dar explicações e deixou Lola sofrendo por não terem tido uma chance de demonstrarem o quanto um realmente gostava do outro. Dois anos se passaram, Lola tocou a vida, encontrou Max e aí Cricket volta e com ele todos os sentimentos que ela nunca conseguiu perder por ele. Desde a primeira vez que o revê, ela mente para si mesma dizendo que só quer ser sua amiga, mas não consegue evitar de dar um passo atrás do outro para ficarem juntos. Só que ela não larga Max. Mesmo sabendo o quanto Cricket sofre quando vê os dois juntos, ela não faz nenhum esforço para minimizar a situação. Ela até se deixa ser beijada na frente dele.

“Estava tão desconcertada que esqueci que Max estaria ali a qualquer momento. Quero empurrar Cricket para trás daquele Hell’s Angel de novo, e parece que ele também não se importaria em desaparecer. Max anda furtivamente pela multidão como um lobo à espreita. Ergo a mão em um aceno sem força. Ele retribui com um aceno de cabeça, mas é para Cricket que olha fixamente. Max me puxa para seus braços tatuados. 
(...) 
— Vou levar umas coisas para a van. — Ele me beija, depressa no começo, mas daí algo o faz mudar de ideia. Vai mais devagar. E realmente me dá aquele beijo. — Mando uma mensagem de texto quando terminar. — E ele se retira sem se despedir de mais ninguém. 
Fico mortificada.”

Deixa falar uma coisa: deve ser muito doloroso ver quem você ama ser beijada(o) por outra pessoa :'(

Não sei tudo sobre amor, mas sei que nunca poderia deixar a pessoa que amo sofrer de ciúme pelo que eu faço, ainda mais sabendo que ela também me ama. E ainda a ficar provocando sem terminar com o namorado, como ela faz com Cricket.

“Ao terminar, ergo os olhos para dar com os seus. Ele retribui o olhar. A Lua se move no céu. Os raios deitam seu brilho nos cílios de Cricket e me ocorre mais uma vez que estou sozinha, no escuro, com um garoto que uma vez partiu meu coração. Que me beijaria, se eu não tivesse namorado. Que eu beijaria, se eu não tivesse namorado. Que eu quero beijar mesmo assim. Mordo o lábio inferior. Ele está hipnotizado. Inclino-me para a frente, fazendo as curvas de meu corpo penetrarem a sombra esguia das suas. O ar entre nós é quente, dolorosamente quente. Ele resvala os olhos em minha blusa. Está muito, muito próxima de sua linha de visão. Entreabro os lábios. E então ele se levanta cambaleante.”

Cricket é um Cameron (personagem de A Garota Que Eu Queria), mais velho e bem vestido. Os dois são parecidos demais. Inseguros, apaixonados, prontos para suportar qualquer coisa pela garota que amam, mesmo que seja vê-la aos beijos com outro cara. Eles são sobreviventes, acostumados com a dor e com a solidão do que acham que não podem ter por não serem bons o suficiente, quando, na verdade, eles são os melhores, são tudo que qualquer garota poderia querer.

“— Porque eu não sou descolado. 
Não acredito! Cricket não é descolado do mesmo jeito que Max, mas ele é a pessoa mais interessante que conheço. Ele é amável, inteligente e atraente. E ele se veste bem. Cricket realmente se veste bem. 
— Como pode achar isso? 
— Qual é? Ele (Max) é aquele deus do rock, sexy e tal, e eu sou o garoto da casa ao lado. Um geek de ciência besta que passou a vida à margem dos rinques de patinação. Com a irmã. 
— Você não é... você não é um geek, Cricket. E, mesmo se fosse, o que tem de errado nisso? E desde quando ciência é besta? ”

Ao fim do livro não sei o que pensar de Lola, nem da escolha que ela faz com relação a Max e Cricket. Ela é aquela garota mimada que não é má de coração, apenas não sabe que decisões tomar e nem como consertar as coisas de errado que fez com os dois caras de sua vida. Mas ela amadurece, reconhece seus erros e tenta consertar a maioria. Não é um consolo, porque dor de coração não se cura de maneira fácil.

Uma última comparação com A Garota Que Eu Queria, está no fato de Lola idealizar Max da mesma forma que Octavia idealizava Rube. Uma tração física que não poderia resultar em nada duradouro, mesmo Lola/Octavia não conseguindo enxergar, ou conseguindo, mas recusando acreditar.

“E daí, na semana passada, em meu aniversário de 17 anos, perdi a virgindade no apartamento dele (Max). Meus pais acham que fomos ao zoológico. A partir de então, dormimos juntos mais uma vez. E eu não sou idiota sobre essas coisas; não tenho ilusões românticas. Li o suficiente para saber que demora um pouco até que as garotas comecem a curtir. Mas espero que isso não demore tanto. O beijo é fantástico, então tenho certeza de que vai acontecer.”

Interessante que a autora deixa subtendido que o prazer verdadeiro do sexo está atrelado ao amor verdadeiro e não à paixão ou desejo. Lola sente isso na relação com Max, mas não reconhece com medo de perdê-lo. Nesse trecho, é muito fácil trocar Max por Rube, o irmão de Cameron do livro da resenha da semana passada, e Lola por Octavia.

“Ele (Max) era meu futuro. E agora ele não é nada. Ele foi o primeiro, o que significa que nunca serei capaz de esquecê-lo; já eu desaparecerei de sua memória. E breve, serei apenas mais uma na sua lista.”

Lola e o Garoto da Casa ao Lado não é apenas sobre um triangulo amoroso, mas também sobre segundas chances: é a segunda chance de Norah, a mãe de Lola, se aproximar da filha; a segunda chance de Nathan e Andy incluírem Norah na família; a segunda chance de Calliope reconhecer o quanto rouba da vida do irmão e retomar a amizade de Lola; a segunda chance de Cricket para desfazer o mal-entendido de dois anos atrás e reconquistar a garota que ama; a segunda chance de Lola ser feliz ao lado do garoto que ocupa seu coração desde pequena.

E não é sempre que a vida nos dá uma segunda chance. Na verdade, talvez aconteça apenas nos livros... por isso é tão bom ler.
Carlos H. Barros
Carlos H. Barros

Carlos tem várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamenta o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco -, e não saber desenhar. Autor também do blog Gettub

4 comentários:

  1. Não faz muito meu estilo Julia!
    Fico feliz que tenha gostado!
    Beijinhos
    Rizia - Livroterapias

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  2. Oie Carlos =)

    Li esse livro faz tempo, mas confesso que esperava mais dele sabe?
    A história é bonitinha tudo, mas fiquei com a sensação que faltou alguma coisa.
    Mas, fico feliz que você tenha aproveitado a leitura ^^

    Beijos;***

    Ane Reis.
    mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
    @mydearlibrary


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  3. Oi Carlos

    Acho esse livro tão fofo. Na verdade quase decido pela não-leitura, tudo isso porque não gostei nadinha de Anna e o Beijo Francês. Decidi dar uma segunda chance a autora e não me arrependi.
    Lola é bastante peculiar, suas roupas, como você disse, são parta da história. A forma diferente como ela se veste mostra o quanto ela é bem decidida e madura.
    Faz tempo que li, mas até hoje o pouco que ficou na memória me deixa com um sorriso no rosto.
    Estou na expectativa do próximo livro da autora.

    Abraços
    Mundo de Papel

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  4. Achei muito engraçados seus "questionamentos" no início...! Lola e o Garoto da Casa ao Lado foi um livro que achei bem divertidinho. Gosto da autora e da maneira como ela escreve; a trama tem frescor, é claramente para os mais jovens, mas nem por isso é boba.

    Beijos, Livro Lab

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