O Começo de Tudo - Robyn Schneider

Sinopse: O garoto de ouro Ezra Faulkner acredita que todo mundo tem uma tragédia esperando ali na esquina – um encontro fatal depois do qual tudo o que realmente importa vai acontecer. Sua tragédia particular esperou até que ele estivesse preparado para perder tudo de uma vez: em uma noite espetacular, um motorista imprudente acabou com a perna de Ezra, com sua carreira no esporte e com sua vida social.. (Skoob)

SCHNEIDER, Robyn. O Começo de Tudo. Novo Conceito: 2014. 288 p.

Ezra e Toby têm 14 anos e são melhores amigos desde sempre. Um dia qualquer, quando vão a uma montanha-russa na Disney, um garoto, que estava sentado no banco da frente do carrinho, ignora as placas de alerta para não ficar de pé durante o percurso e, na entrada de um túnel,  perde a cabeça, que vai parar no colo de Toby. Depois disso, Ezra e Toby se afastam. Ezra ganha evidência no colégio jogando tênis, e Toby ganha evidência pelas gozações em cima do que aconteceu na montanha-russa.

Na vida de todos, não importa quão comum seja, existe um momento que se tornará extraordinário – um único embate após o qual tudo o que realmente é importante vai acontecer.

Três anos mais tarde, Ezra já é o garoto mais popular do colégio e namora Charlotte, tão popular quanto ele, principalmente por sua beleza. Em uma festa de fim de ano na casa de um colega e depois de ter tido uma discussão com Charlotte por motivos fúteis, Ezra flagra a menina transando com um desconhecido. Ele sai da festa aos tropeços, entra em seu carro e, ao passar por uma cruzamento, um SUV (Sport Utility Vehicle, ou veículo esportivo, ou um Range Rover, por exemplo), não para no sinal vermelho e bate com tudo na sua lateral. Embora tenha sobrevivido ao acidente, seu joelho foi esmagado e, após duas semanas no hospital, várias cirurgias e a implantação de uma peça de metal no lugar do osso, Ezra não pode mais jogar tênis ou praticar qualquer outro esporte.

No ano seguinte, quando Ezra volta para a escola caminhando com a ajuda de uma bengala, ele sente nos olhares dos colegas toda a dor pelo que perdeu e a vergonha de achar que o consideram um aleijado. Ele se sente excluído por não fazer mais parte do time de tênis, de Charlotte estar namorando Evan, seu ex-melhor amigo, de não se sentar mais na mesa da turma popular e por ter que frequentar sessões com um psicólogo e com um fisioterapeuta.

Dava para sentir os olhares em mim, e não porque eu tinha batido o recorde de votos nas eleições do conselho de classe ou tivesse ficado de mãos dadas com Charlotte Hyde na fila do café do pátio superior. Nada disso. Tive vontade de me encolher, pedindo desculpas em silêncio pelas olheiras e pelo fato de não poder falar de nenhum bronzeado de verão. Tive vontade de sumir.”

Quando ganhamos alguma falta evidente, seja física ou psicológica, algumas pessoas que nos tratavam bem, se afastam, porque não correspondemos mais às suas expectativas egoístas. É em momentos de dificuldade que as verdadeiras amizades ficam claras e se fortalecem. Assim, as duas únicas pessoas que tomam a iniciativa de se aproximar de Ezra, é justamente Toby, o amigo que ele abandonou três anos atrás, e uma aluna nova, de roupas estranhas e cabelos vermelhos, chamada Cassidy

Era a aluna nova. Segurando um horário de aulas amassado, ela me encarava como se eu lhe tivesse dado a impressão de ser a pessoa certa com quem conversar no seu primeiro dia na escola. Não esperava aqueles olhos de um profundo e inquietante azul-escuro, do tipo que faz a gente pensar se os céus se abririam quando ela ficasse zangada.”

Ezra passa metade do livro lamentando o que perdeu com o acidente. Mas ao contrário do que eu esperava, as lamentações não são sobre ele não poder mais jogar tênis, mas sim pelo afastamento de seus pretensos amigos, dos convites para as festas, da mudança na forma como o técnico do time o tratava, da traição de uma namorada de quem não gostava de verdade e da inevitabilidade das dificuldades físicas, como subir uma escada ou correr. 

É Cassidy quem muda tudo isso.

Toby a conhece dos torneios de debates, onde ela chegou invicta às finais e ficou famosa. Mas não por ganhar a última fase, mas por abandonar tudo de uma hora para outra e sumir sem dar explicações. Quando ela reaparece transferida para o colégio onde estuda, Toby avisa Ezra para tomar cuidado para não se apaixonar e acabar machucado.

Só que é por causa dessa paixão que Ezra muda. A partir do momento que eles começam a namorar, depois de um trecho simples, mas muito romântico, ele consegue deixar de lado toda a futilidade de sua antiga vida e aprende a ver o que realmente tem importância. Ele muda suas prioridades, suas amizades, sua forma de vestir, a relação submissa com sua mãe protetora e até o seu quarto, antes completamente sem personalidade, com livros que nunca leu escondidos debaixo da cama e quadros pendurados na parede que foram escolhidos pelo pai e não por ele. 

Então, no fim do ano letivo, quando Ezra e Cassidy conversam ao telefone combinando o encontro daquela noite, quando os dois iriam juntos ao baile de formatura, Ezra faz um comentário corriqueiro, Cassidy fica muda, pede para desligar e desaparece. Quando Ezra a encontra, Cassidy termina com ele usando um motivo que o derruba, mas que ele se recusa a acreditar. 

Cassidy é tão importante na vida de Ezra, que quando ela se afasta, ele retrocede em tudo que evoluiu como pessoa, afasta-se de Toby e volta para o antigo círculo de amizades. E é interessante que, nesse ponto, ele descobre que os medos de estar sendo motivo de pena era equivocado. Ele descobre que os antigos amigos, mesmo com toda a sua superficialidade e prioridades equivocadas, continuavam gostando dele. Que até Charlotte tinha seu motivo distorcido para tê-lo traído. Que a pena que ele via nos olhares dos colegas, eram, na verdade, sua própria dificuldade em aceitar a nova condição.

E quando, poucas páginas depois, Ezra consegue descobrir o verdadeiro motivo de Cassidy ter terminado com ele na noite da formatura, quando ele a confronta depois de um pequeno momento triste do livro, você, leitor, dá um pulo de susto. A autora não faz nenhum preparativo, não dá nenhuma pista, até que solta tudo em uma frase e você se dá conta de que a história dos dois estava ligada muito antes de se conhecerem.

E é nesse pequeno ponto em particular que O Começo de Tudo se torna frustrante. Não pela surpresa, mas pelo que vem depois dela. 

Não tenho como comentar mais, nem dizer se eles se acertam ou não, claro, mas posso afirmar que as duas últimas páginas do penúltimo capítulo, simplesmente contradizem tudo o que aconteceu nas outras 386 páginas do livro. A sensação que tive, é que a autora forçou um final incoerente com a história de amor que desenvolveu para fazer o leitor se emocionar, quando ele se emocionaria muito mais se ela se mantivesse na mesma linha que havia construído. 

Sinto uma imensa frustração quando reconheço uma boa história, que poderia ser muito melhor, mas que a autora não teve experiência, ou visão, para deixá-la dessa forma.

Oscar Wilde disse certa vez que viver é a coisa mais rara do mundo, porque a maioria das pessoas apenas existe, e isso é tudo. Não sei se ele tem razão, mas sei que passei um longo tempo existindo, e, agora, eu pretendo viver.”

De qualquer forma, O Começo de Tudo é uma ótima surpresa, com trechos fortes, emotivos, e com personagens secundários interessantes e complexos, dos quais não fiz nenhum comentário para não deixar esta resenha ainda maior. Mas o destaque fica mesmo com Toby, Cassidy e Ezra, de quem não gostei no início, principalmente por causa de sua futilidade, mas que me foi conquistando com seu amadurecimento, consequência do amor por Cassidy. 

O livro é um frescor no meio de tantos lançamentos de modinha, cheios de personagens e histórias superficiais, que recebem mais destaque por causa de uma leitura fácil e rápida.

Recomendo, mas, quando for ler, ignore, por favor, as duas páginas que citei um pouco acima. ;)


Carlos H. Barros
Carlos H. Barros

Carlos tem várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamenta o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco -, e não saber desenhar. Autor também do blog Gettub

7 comentários:

  1. Oi Carlos!

    Ai, eu adorei tanto esse livo! E olha que, para ser sincera com você, o que me atraiu nele na verdade foi a cor da capa, já que amarelo é minha cor preferida. Não me julgue. HAUEHAUEHAUEHAEAE

    Mas fiquei super feliz quando terminei a leitura e percebi que, sem dúvida, foi um dos melhores livros de 2014. *.*

    Beijos!
    http://www.roendolivros.com/

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    1. Oi, Ana!
      Eu também me surpreendi com a qualidade da história. Pensei que seria mais um daqueles que esquecemos depois de um ou dois meses, e, felizmente, me enganei :)
      Abs e obrigado pela visita!

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  2. Oie
    Adoreii a resenha, a história parece bem interessante e forte. Fiquei com vontade de ler.

    Beijos

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    1. Oi, Nessa!
      Leia, sim. Acho que tem poucas pessoas comentando esse livro, mais porque a autora não é muito conhecida, mas vale muito a pena.
      Obrigado pela visita! ;)

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  3. Oi Carlos

    Esse livro foi tão decepcionante e esse final... nem consigo falar dele sem sentir uma imensa raiva de Cassidy. Que garota péssima, me tirou do sério e eu tive vontade de jogar o livro fora por causa dela.
    Achei o livro bem parecido com os de John Green, masa autora errou a mão ao criar essa história.
    É um livro que deixa a sensação de que faltou algo.

    Abraços
    Mundo de Papel

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    1. É verdade, Caline! O Ezra muda, fica um cara melhor por causa de Cassidy, e no fim a autora diz que ele será melhor sem ela O.o só para forçar uma ruptura... enfim, obrigado pela visita e pelo comentário!

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  4. Olá Carlos,

    Esse livro esta na minha pequena lista de espera de leituras, sua resenha me animou anda mais, apesar das ressalvas....abraço.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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