Época de Morangos - Rafaella Vieira

Sinopse: Um dia, aos 13 anos, Jordana vê de longe um rapaz e tem a certeza que ele é seu Príncipe Encantado – um desconhecido que é o mais lindo e perfeito garoto do mundo. Um tempo depois, descobre que ele estuda na sua própria escola, porém é mais novo que ela, e nem sonha com namoradas ou amor. O tempo vai passando, e aos poucos os dois vão descobrindo as dores e as delícias da adolescência e juventude, e entre encontros e desencontros, buscam a felicidade ao lado do verdadeiro amor, que pode nascer à primeira vista, mas durar para sempre. (Skoob)

VIEIRA, Rafaella. Época de Morangos. Gutenberg: 2014. 320 p.

Jordana se apaixonada por um menino durante um passeio à Disney. Eles trocam apenas um olhar e um sorriso. Mesmo assim, ela não consegue tirar esse momento de sua mente nas semanas seguintes. Para sua surpresa, na volta às aulas, ela descobre que esse menino foi estudar no seu colégio, só que ele é um ano mais novo do que ela.

Edgar tem 12 anos. Jordana 13.

“Sim, eu vi o príncipe encantado, mas não era m daqueles caras fantasiados que ficam pelo parque. Era o garoto mais especial do  mundo. Ele era lindo, alto, loiro, de olhos azuis, e olhou para mim de um jeito diferente enquanto eu andava com as mãos nos bolsos. Jamais vou esquecer aquele olhar.”

Durante os próximos 10 anos, acompanhamos a sucessivas decisões erradas, faltas de iniciativa, inseguranças, egoísmos e insensatezes de Jordana para descobrir o que Edgar sente por ela, sempre desperdiçando as chances que surgem e se arrependendo depois, mesmo sendo óbvio que Edgar também gosta dela.

“Fiquei calada olhando para ele ali, bem na minha frente. Digo, bem mesmo.
- Você tem um cheiro gostoso de morango - ele falou e eu fiquei tonta. Tanto que fui capaz de dizer:
- É meu Bubbaloo. Quer provar?
Sorri, esperando que ele fizesse o que eu queria que ele fizesse. Você sabe do que estou falando...
- Quero.
Então, abri um pouco a boca esperando que ele me beijasse, mas sabe o que ele fez? Enfiou o dedo na minha boca, tirou o chiclete e colocou na boca dele.”

Embora Rafaella Vieira escreva muito bem, ela não gosta de descrever lugares ou pessoas. E o que descreve, sempre é sobre personagens bonitos, perfeitos. Por exemplo, não sabemos como Jordana é fisicamente. Nem nenhum outro personagem, com exceção de Edgar, que é alto, bonito, loiro, tem olhos azuis e barriga de tanquinho. Eu acho que, às vezes, um pouco de imperfeição ajuda a equilibrar a credibilidade dos personagens. 

Também fiquei perdido em diversos momentos por não conseguir identificar o lugar em que as ações ocorriam. Por esse mesmo motivo não havia gostado de Sete Minutos no Paraíso, um outro livro da autora que li no início do ano passado. É um estilo que eu, particularmente, não aprecio. 

Conseguimos deduzir algumas coisas, como, por exemplo, que Jordana é rica, uma vez que é um motorista particular quem a busca no colégio; sua avó a leva para a Disney por conta própria e não através de um pacote turístico; as festas que faz e que frequenta são em clubes ou em hotéis, entre outros detalhes. Talvez isso explique um pouco a necessidade de Jornada em apenas esperar que os outros tomem a iniciativa, nunca ela. E esse é um dos principais motivos porque ela não consegue resolver sua situação com Edgar.

Época de Morangos tem alguns pontos positivos. Mas eles são ofuscados, ou completamente estragados, pelos pontos negativos. As situações fofas, românticas, são todas finalizadas por algum mal-entendido. Todas as vezes que os dois personagens ficam próximos de se entenderem, Jordana estraga tudo, por alguma ação confusa ou por não conseguir compreender as atitudes de Edgar. Aos poucos, fica repetitivo e frustrante. 

“Desviei o olhar sem erguer os olhos e me deparei com um par de tênis verdes. Estava com vergonha de levantar a cabeça. Primeiro, porque achava que aqueles olhos lindos estariam grudados em mim e segundo, porque já havia decidido que não devia mais ficar iludida por ele.”

E repetitivo são as escolhas amorosas que Jordana faz na tentativa de esquecer seu amor pelo garoto. E essas mesmas escolhas causam certa estranheza pela forma como a autora descreve os relacionamentos. 

Toda a narrativa é direcionada pela imaturidade dos personagens em descobrirem o que cada um sente ou pensa sobre o outro. É algo bastante compreensível diante da idade deles. Entretanto, como o livro é narrado em primeira pessoa por Jordana, seus pensamentos não condizem com sua idade naquele momento, mas sim com a do final do livro, 10 anos mais velha. Aliás, nem os lugares que ela frequenta, como as festas sempre regadas a álcool ou as excursões em chalés mistos. Sem mencionar os trechos eróticos que ficam fora de contexto dentro do resto da narrativa. Vejam bem: no início, com 13 anos, a personagem descreve de forma direta que se sente molhada ao pensar em Edgar. Em seu primeiro relacionamento, aos 15 anos, ela descreve a perda de sua virgindade com descrições bem mais diretas. E na tentativa de esquecer Edgar, com o passar dos anos, ela se relaciona com caras por quem sabe que não sente nada tão forte. 

Bem, acredito que existam garotas mais pra frente, mais desenvolvidas sexualmente, com pais ausentes que permitem que durmam durante excursões em quartos com outros garotos, mesmo aos 13/14 anos. Mas e os professores? Gerentes de hotel? Monitores? Ou então eu que estou por fora mesmo...

A situação fica ainda mais estranha quando, quase no fim do livro, Jordana cria duas situações conflitantes para não ficar com Edgar que fogem da lógica de qualquer pessoa mais sensata. A garota ficou 8 anos querendo o menino, e quando não existe algo que impeça, ela vem com dois motivos tirados de filme da Sessão da Tarde. Passam-se dois anos, ela se encontra com ele de novo, e a história se resolve como deveria ter sido resolvida 10 anos atrás, com apenas uma pergunta.

“De novo, estávamos naquela corda bamba, que sempre nos fazia vacilar e sentir que o certo era enfrentar o que havia e falar a verdade, mas inevitavelmente fazíamos o contrário. Pelo menos, eu fazia. Errei tantas e tantas vezes com ele, que nem sabia por onde começar. Só queria poder dizer tudo o que sentia, mas não tinha coragem e, mais uma vez, não dizer seria um erro.”

O mais incrível é que, segundo a autora, Época de Morangos é baseado na sua própria vida, ou seja, é uma história real. E nesse ponto, por causa de tanta coisa sem noção, eu até acredito, porque uma história inventada seria mais coerente. 

O ser humano costuma criar problemas onde eles não precisam existir, ter dúvidas sobre coisas claras e tomar decisões, ou não tomar, baseado em temores infundados. Nossas vidas são cheias de arrependimentos de atitudes que tomamos ou deixamos de tomar. 

Isso é ser, é viver, é aprender.

E talvez essa seja a única coisa que se salva na história de Jordana e Edgar: a lição de que nossas fraquezas podem desperdiçar a felicidade ao lado de outra pessoa, fazendo com que se percam anos que nunca serão recuperados. Quando amamos muito, mas muito mesmo, uma pessoa, o medo de ouvir um não dela é maior do que a vontade de ficar ao seu lado. Preferimos viver na incerteza do que na possível certeza de um sentimento não correspondido.

Por isso, quando você encontrar alguém por quem sente algo mais forte, não seja uma Jordana, e sim corra atrás, não espere que ele caia na sua cabeça. Lembre-se: o não você já tem, o que conseguir a mais é lucro! :)

Carlos H. Barros
Carlos H. Barros

Carlos tem várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamenta o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco -, e não saber desenhar. Autor também do blog Gettub

10 comentários:

  1. Olá Carlos, ainda não li nada da autora e talvez fique feliz por isso, pois detalhes são extremamente importante em um leitura. E esses conflitos sem fim para um final me irrita. É uma pena que tudo soe muito clichê em meu ponto de vista. Enfim, gostei do seu ponto de vista. Beijos,
    http://miiheomundoliterario.blogspot.com.br/

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    1. Olá, Yasmim! Tudo bem?
      Vou repetir o que disse para a Nana logo abaixo: nunca deixe de ler um livro por causa da resenha de alguém, inclusive minha, claro. É apenas uma opinião sobre meu gosto pessoal, e isso muda de pessoa para pessoa. Se puder, leia o livro sim, acho que, apesar das coisas que não gostei, vale a leitura!
      Abs e obrigado pelo comentário! :)

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  2. Oi Carlos,
    Esse livro seria daqueles que eu compraria pela capa.
    Mas pela tua resenha, ficaria desapontada durante a leitura. Sou dessas que não gostam de personagens 100% perfeitos, principalmente protagonistas, pois né, a gente espera se identificar em algum ponto.

    bjs e tenha um maravilhoso início de ano
    Nana - Obsession Valley

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    1. Oi, Nana!
      Na verdade não é o comportamento deles que é perfeito, mas sim sua aparência. Jordana, principalmente, tem bastantes defeitos ;)
      Ah, e nunca deixe de ler um livro por causa da resenha de alguém, inclusive minhas. É apenas uma opinião sobre meu gosto pessoal, e isso muda de pessoa para pessoa. Se puder, leia o livro sim, acho que, apesar das coisas que não gostei, vale a leitura!
      Abs e obrigado pela visita!

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  3. Oi, Carlos!
    A capa desse livro é linda <3 Também não sou muito fã de personagens perfeitos em geral, acho que precisamos de um pouco de realidade nos livros, haushaush. Curioso o livro, mas para o futuro,

    Beijo

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    1. Oi, Sofia!
      Hoje vou repetir a mesma resposta para todos rsssss
      Nunca deixe de ler um livro por causa da resenha de alguém, inclusive minha, claro. É apenas uma opinião sobre meu gosto pessoal, e isso muda de pessoa para pessoa. Se puder, leia o livro sim, acho que, apesar das coisas que não gostei, vale a leitura! Ah, e qdo me referi a perfeição, é a física.
      Abraço forte e obrigado!

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    2. Oi, Carlos!
      Entendi sua resenha, mas o enredo em si e os aspectos apontados na resenha não me agradaram, entende? Não foi um livro que me despertou interesse para agora.
      Concordo contigo a respeito das resenhas, tudo é muito relativo e pessoal.

      Beijão e parabéns pela resenha!

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  4. Oie Carlos
    confesso que eu tinha a maior curiosidade em ler a obra, mas lendo sua resenha foi diminuindo a vontade rs
    E meninas de 13 anos ficarem molhadas pensando em um garoto é over demais pra mim. Até os 17 eu brincava de barbie, e nem sabia o que era sexo kkkkkkkkkkkkk
    Mas eu leria pela experiência de se tratar de uma história baseada na vida da autora (seja ela bizarra ou não rs)
    bjos
    www.mybooklit.com

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    1. Jacqueline, tudo bem?
      Essa parte ficou muito estranha mesmo. Mas, como disse para as meninas acima, leia o livro, sim. Mesmo com isso, vale a pena. E você pode gostar de muita coisa que eu não gostei. :)
      Abraços e obrigado pelo comentário!

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  5. Oi Carlos
    Adorei sua resenha verdadeira e suas ressalvas me deixaram com vontade de ler mesmo sendo algumas negativas.
    Ainda não conhecia o livro, mas gostei do contexto e da premissa.
    Ótima resenha, como sempre ;)
    Beijinhos

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