Verme! - Jim Carbonera

Sinopse: Entre o fictício e o real, Rino Caldarola narra em primeira pessoa suas desventuras e desatinos em Porto Alegre, sua cidade natal. Inconformado pela escassez de inspiração e à procura de um lugar ao sol no cenário literário brasileiro, o protagonista é o reflexo das desilusões e dos anseios que atormentam uma sociedade cada vez mais conturbada e contraditória. Com uma narrativa insolente e exasperada, Rino constrói e defende seu espaço pessoal utilizando-se de ironia, arrogância e de um erotismo cru. Busca desvencilhar-se de sua mãe coruja e do seu bairro que outrora fora de classe média, mas agora se elitiza em nome do progresso. E, principalmente, luta para desembaraçar sua paradoxal maneira de pensar e ver o mundo. (Skoob)

CARBONERA, Jim. Verme!. Boêmia Urbana: 2014. 200 p.

Aquilo que mina, consome ou corrói lentamente. Essa é uma das definições de verme no dicionário. Quando não possuímos em nossa vida um farol que nos indica a direção de nossos sonhos, de nossos desejos, de nossas ambições, enfim, de qualquer coisa que nos indique qual caminho devemos seguir para alcançar um fim, perdemos a direção e vagamos ao léu.

"Sueco tinha uma vida estável - era cargo de confiança de um vereador. No Brasil, qualquer pessoa metida na política tem uma vida estável. Pode ser da menor cidade do país, mas com certeza não passará necessidades. A política nos dá poder. Num país onde ser corrupto nunca sai de moda, quem trabalha no setor está sempre acima do bem e do mal."

Rino Caldarola, o personagem que parece o espelho de seu autor – e em certos momentos do de Verme!, não temos qualquer dúvida de que é o autor quem conversa com o leitor e não o personagem –, vaga sem direção, empurrado pelo vento, sem conseguir qualquer vislumbre de seu destino final. Ele quer escrever, mas não consegue descobrir um incentivo que faça surgir sua inspiração. Anda sempre com um bloco de anotações e um cantil de bebida. Mora na casa dos pais e vive às custas de um aluguel de um apartamento que possui.

"O maior erro num relacionamento é o sentimento de posse. Neste mundo ninguém conhece ninguém. Devemos estar preparados para o pior. Somos humanos e fracos. Os erros e traições fazem parte dos nossos carmas, assim, como a decisão de perdoar ou não."

Sem um início que prepare o leitor para as próximas duzentas páginas, acompanhamos um ano da vida de Rino na cidade de Porto Alegre. Somos apresentados a situações corriqueiras na vida de um homem – não um homem no sentido de humanidade, mas de um homem no sentido de varão –, e a seus pensamentos e atitudes diante de cada uma. Não existe uma história com começo, meio e fim. Não existe uma linha de ação que culmina em um clímax. Há apenas o que a vida apresenta a cada mudança de dia, e a reação de Rino a cada uma delas.

É fácil definir Rino pelo que ele não é. Ele não é romântico. Não é sentimental. Não é corajoso. Não é covarde. Não é fiel. Não mede as palavras e se expressa da mesma forma que pensa. Numa definição breve e direta, Rino é a representação bruta do sexo masculino, sem qualquer lapidação. É fácil taxar Rino com diversos adjetivos: machista, fiel, egoísta, compassivo, preguiçoso, sonhador, aproveitador, sincero, mulherengo, sedutor, infiel, viril.

Percebem a dualidade?

Ao mesmo tempo que você sente aversão ao personagem, não tem como você não simpatizar com sua sinceridade explicita e com algumas atitudes que demonstram a boa índole como pessoa. Em um momento acompanhamos a total indiferença de Rino com sua irmã, para no momento seguinte acompanhar sua compaixão por um desconhecido professor de história à beira da destruição que ele encontra em um bar. Uma hora, vamos com Rino para casas noturnas da classe média alta, para na outra hora nos sentarmos com ele na calçada e dividirmos nosso cantil de rum com um bêbado.

"Não gosto de enrolação. Todo cara que se passa por amiguinho só está cozinhando a garota para traçar depois. Se não for isso, o cara é vedete e gosta de sentar no pepino."

Rino é contraditório, mas é ao mesmo tempo extremamente coerente com as mulheres. Desde que você o enxergue como o que ele é, sua natureza. Ele não é o príncipe no cavalo branco, nem o cavaleiro de armadura negra. Ele é fiel na presença da mulher com quem está. Apenas nesse momento. Ele canta a garçonete de onde bebe café; ele fica excitado com as garotas de biquíni quando nada na piscina de seu prédio; ele se despede de uma namorada com saudades que duram a mudança de uma noite; ele não se inibe perante qualquer objeto de conquista, e, acima de tudo, ele deixa a mulher com quem fica totalmente ciente de que ele é assim.

"Acho que somos assim, voyeurs naturais. Se não podemos ver os outros transando, nos contentamos com nós mesmos. Somos animais, mamíferos; apaixonados pelo toque, pelo cheiro, pelo suor e pela carne de outrem.AA partir do momento que nos for tirado esse direito - do prazer instintivo - viraremos meros seres decorativos, superficiais e frívolos."

Rino não é o sonho da maioria das mulheres, mas ele é a realidade do que uma mulher pode encontrar como essência no sexo masculino.

Verme! é, acima de tudo, um relato cru, sincero, direto do pensamento masculino, sem adornos, sem rodeios, e, por isso mesmo, ofensivo de tão verdadeiro.

Retire do homem os conceitos individuais aplicados durante a vida que definiram sua personalidade. O que sobrar, é Rino.
Carlos H. Barros
Carlos H. Barros

Carlos tem várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamenta o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco -, e não saber desenhar. Autor também do blog Gettub

7 comentários:

  1. Oi Carlos, achei a questão do livro interessante, gosto de histórias que não são romantizadas também - apesar de preferir as que são. Só não sei se iria gostar do ritmo da leitura que, pelo você comentou, parece tão uniforme. O livro que li e que mais se encaixa nessas características que você citou é "O Filho Eterno", de Cristóvão Tezza. Se gostar de obras assim, recomendo.

    Beijos

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    1. Oi, Ju!
      O livro é pequeno e a leitura é bem rápida, mesmo sendo uniforme. As situações passadas por Rino, apesar de corriqueiras, são narradas de forma tão crua e direta, que você encontra curiosidade pra continuar e ver onde ele vai chegar rssssssss
      Abs

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  2. Oie
    Não sei o certo se leria o livro, sei lá, mas ao mesmo tempo fiquei curiosa para conhecer a obra e ver como tudo termina.

    Beijos

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    1. Olá, Nessa!
      Tem namorado? Esposo? Rolo? rsssss
      Leia o livro. Vai ajudar vc a entender muita coisa do comportamento masculino ;)
      Abs

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  3. sem dúvida é interessante mas não sei se gostaria do personagem não. não gosto de personagens que parecem que não tem personalidade definida. uma hora é uma coisa outra hora é completamente diferente. é válido pq vemos uma realidade (?) masculina, mas tenho quase certeza que não vou gostar não. enfim, se aparecer oportunidade eu leio.

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    1. Oi, Aninha!
      Na verdade, Rino tem, sim, sua personalidade própria, mas de forma bruta, sem nenhum dos bloqueios morais que nos fazem fazer e dizer o que na verdade não queremos.
      Bjs

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  4. Olá Ju,

    Mais um livro que fico conhecendo aqui, a sinopse me deixou curioso, mas sua resenha me deixou intrigado, espero pode ler, dica anotada...bjs.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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