Conjuntando #66: Um conto de Natal


Nossas vidas são cheias de pequenos momentos que, embora pareçam insignificantes, podem mudar tudo, para você, para mim, para qualquer um. A riqueza de nossa sabedoria, é identificar esses momentos. Leia as pequenas histórias abaixo e, no final, talvez entenda como esses momentos podem ser decisivos.

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Aquela era a penúltima semana antes do fim do ano, e Fernanda estava de recuperação. Faltavam dois dias para as aulas acabarem, e quatro dias para o Natal. Eram sete horas da manhã, e ela teria prova às oito horas.

O vazio de colégio, uma vez que haviam poucos alunos na mesma situação que Fernanda, parecia muito maior do que quando dezenas de garotos e garotas andavam pelos corredores e pátios, conversando e rindo.

Fernanda sentia falta das amigas, como se tivesse sido abandonada. Mas sabia que não era culpa delas, mas de si própria.

Com esse pensamento, ela viu Bianca, uma menina gótica, sentada no chão, encostada na parede, em um canto afastado do pátio. Ela escrevia algo em um caderno, compenetrada, de rosto sério.

Fernanda nunca conversou com Bianca. Não havia um motivo específico. Bianca, simplesmente, por causa de seu estilo, não se encaixava no grupo de Fernanda. Era desajeitada, vestia-se sempre de preto, andava de cabeça baixa, escondia o rosto. Algumas meninas e meninos cochichavam sobre Bianca. Coisas que Fernanda não sabia se eram verdade. Como ela não gostava de boatos, e nem fuxicar a vida dos outros, ignorava.

Mas, naquele momento, Fernanda sentiu o que ela achou que seria a mesma coisa que Bianca sentiu todo o ano: solidão. Então, deu de ombros, cruzou o pátio e sentou-se ao lado de Bianca. No mesmo instante, a garota fechou o caderno e o apertou junto ao peito, sem olhar para Fernanda.

Aos poucos, com alguma dificuldade, Fernanda conseguiu começar uma conversa com Bianca. Assuntos triviais, mas suficientes para conseguirem interagir. Coisas sobre livros, cantores, filmes, séries. Cultura comum a todo jovem, independentemente de sua tribo. E até a hora da prova, as duas já riam juntas, como se o muro imaginários que as separava, nunca tivesse existido. Foram juntas para a sala, e saíram juntas, também.

Não muito longe dali, em uma avenida de trânsito intenso, Victor e Marina, um casal de idosos, andavam apressados, carregando algumas sacolas de compras, cheias de presentes de Natal para os netos.

Um pouco cansados, eles apenas desejavam que o ônibus, que iriam pegar, não estivesse muito cheio, para que pudessem descansar um pouco as pernas. Conversavam e faziam planos de como seria a ceia do dia vinte e quatro.

Quando estavam próximos, viram que o ônibus estava vindo, mas que não parou no ponto, porque este estava deserto. Sabendo que o próximo coletivo iria demorar mais de vinte minutos para passar, eles fizeram sinal com as mãos para que ele parasse, apesar de que isso não era permitido pela companhia.

Dentro do ônibus, Pedro, o motorista, exausto por estar trabalhando desde a madrugada, só desejava terminar aquela viagem, sua última do dia, para poder ir para casa e descansar. Quando ele viu os dois velhinhos, seu primeiro pensamento foi em ignorar. Afinal, parar fora do ponto, para um passageiro entrar, era proibido.

Mas, naquele momento, Pedro sentiu que o seu cansaço poderia ser o mesmo daquele casal. Num ímpeto, parou o ônibus e os deixou embarcar. Marina e Victor agradeceram com um enorme sorriso, que foi retribuído.

Na parte de trás do ônibus, quase vazio, haviam três pessoas: Vanessa, uma garota bastante bonita, olhando, distraída, pela janela; um homem, sentado ao lado da garota; e, no último banco, Caio, um garoto, lendo uma revistinha em quadrinhos.

Enquanto lia, de vez em quando, Caio desviava os olhos das páginas para Vanessa. Eles sempre viajavam juntos naquele ônibus. Ele tinha um crush por ela, mas nunca teve coragem de se aproximar, iniciar uma conversa. Só conseguia admirá-la ao longe e imaginar que um dia seria capaz de algo mais do que isso.

Mesmo distraído com a história que lia, Caio reparou que o homem, ao lado de Vanessa, encostava o ombro nela, embora ela se afastasse. Primeiro, pensou que deveria ser por causa do balançar do ônibus. Então, reparou que o homem fazia isso, mesmo quando o ônibus parava em algum sinal vermelho.

Caio fechou a revistinha e ficou prestando atenção. O homem se inclinou e cochichou algo no ouvido de Vanessa. Ela ficou visivelmente irritada, pareceu que iria se levantar, mas, de repente, mudou de ideia e ficou estática. O homem continuou sussurrando no ouvido dela.

Naquele momento, Caio saiu de onde estava e aproximou-se do banco de Vanessa. Respirou fundo. Controlou a tremedeira. Bem alto, falou o nome dela, disse que estava surpreso por encontrá-la ali, que sentia saudades, que havia muito tempo que não se viam. Perguntou pelos pais dela, pelo namorado, que era polícia militar, e que era uma boa chance deles colocarem a conversa em dia. Tudo inventado, claro.

Vanessa concordava com tudo o que Caio dizia. E quando Caio deu sinal para o ônibus parar, Vanessa se levantou e saiu junto com ele, deixando o homem que estava ao lado dela, visivelmente irritado.

Já na rua, Vanessa abraçou Caio e agradeceu, agradeceu, agradeceu. E os dois foram caminhando juntos, pela rua, na direção da casa de Vanessa, sem repararem em Vinícius, um pai que deixou sua família, parado em frente a uma casa, segurando um pacote embalado com papel de presente.

Vinícius tinha uma filha de dez anos de idade, Renata, e havia sido casado durante dez anos com Amanda. Cinco anos atrás, devido a problemas no emprego, falta de dinheiro, uma vida rotineira e estressante, ele acabou saindo de casa. Perdeu a guarda de Renata, criou uma mágoa em Amanda, que impedia qualquer relacionamento.

No ano anterior, devido a algo que Vinícius descobriu, sua perspectiva da vida mudou. De certa forma, ele se tornou um homem diferente, mudou suas prioridades, compreendeu o que havia perdido por motivos insignificantes. Assim, após muitas tentativas sem sucesso, ele tentava mais uma reaproximação. Esperançoso de ser recebido, como todas as outras vezes, ele tocou a campainha da casa, e esperou.

Amanda olhou pela janela e viu Vinícius. Suspirou, impaciente. Mas, naquele momento, ela viu algo que não tinha conseguido das outras vezes. Ela viu um homem abatido, magro, sozinho. Não sentiu pena, apenas saudades de quando ele era importante em sua vida. Olhou para Renata, que assistia televisão, e pensou que ele era importante para a filha.

Ela abriu a porta e fez sinal para que ele entrasse. Vinícius não esperou um segundo sequer para obedecer, com um enorme sorriso no rosto.

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Fernanda, naquele momento que conversou com Bianca, não sabia que Bianca escrevia uma nota de suicídio no caderno, que seria encontrada junto ao seu corpo, depois que ela tivesse ingerido medicamentos e fosse encontrada morta no banheiro de sua casa. Depois da conversa com Fernanda, Bianca sentiu aquilo que lhe faltava: esperança de ser notada. Depois da prova, quando chegou em casa, ela rasgou o bilhete e tentou novamente.

Pedro, naquele momento que decidiu parar o ônibus e deixar Marina e Victor entrarem, não fez apenas uma bondade. Ele salvou a vida dos dois, porque, minutos depois, um caminhão, que perdeu os freios, passou por cima do ponto, que, graças a Pedro, estava vazio.

Caio, naquele momento que ajudou Vanessa a se livrar do assédio do estranho, não viu que ele segurava uma navalha e ameaçava a garota de a matar, se ela não saísse com ele do ônibus. E se Caio não tivesse intervindo, o homem levaria Vanessa e a estupraria.

E Amanda, naquele momento que decidiu dar uma nova chance a Vinícius, não sabia que no ano anterior, ele havia sido diagnosticado com câncer terminal, que aquela era a sua última tentativa de passar um Natal com a filha, antes de morrer.

Então, por tudo isso, não perca seus momentos de fazer amizades, de ajudar, mesmo quando estiver cansado, de ser corajoso, quando achar que tem medo demais, de perdoar, porque todos nós erramos.

Não se esqueça de ser feliz. Mas também não se esqueça de fazer os outros felizes!

FELIZ NATAL!
Carlos H. Barros
Carlos H. Barros

Carlos tem várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamenta o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco -, e não saber desenhar. Autor também do blog Gettub

9 comentários:

  1. Nossa, que lindo ficou esse conto! E dá até um nó na garganta porque faz pensar em tudo que a gente acaba perdendo, as coisas que ficamos com remorso depois e que poderia ser diferente se a gente desse uma chance, se ligássemos mais para o que realmente importa, se tivéssemos coragem, se fôssemos pessoas melhores até. Pequenos atos importam. Muito bom ^^
    E um feliz natal a todos do blog heim!

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  2. Nossa, que conto mais lindo Carl.
    Verdade é importante estarmos atentos as coisas que acontecem a nossa volta, assim como também sempre tentar ajudar o próximo, sem se importar com as circunstâncias. enfim eu amei.
    Boa Tarde.

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  3. Oi, Carlos!!
    É um conto muito interessante. A gente nunca pensa que podemos mudar a vida das pessoas e que às vezes uma simples conversa ou ajudar alguém pode salvar a vida de uma determinada pessoa. É um conto que sem dúvida faz todos nós refletimos um pouco mais de como simples gestos podem mudar vidas.
    Beijoss e Um Feliz Natal!!!

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  4. Carlos!
    Nossa! Super emocionada com alinda mensagem através de conto.
    É assim mesmo que devemos agir, sem esperar nada em troca e ainda fazendo o bem, mesmo que não saibamos.
    Chorei...
    “Que os sinos do Natal sejam os mensageiros de boas festas e que o ano novo seja repleto de realizações. Feliz Natal e um próspero Ano Novo!” (Desconhecido)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de DEZEMBRO ESPECIAL livros + BRINDES e 4 ganhadores, participem!

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  5. Nossa, que linda mensagem em forma de conto, super emocionante, amei, parabéns!

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  6. É uma mensagem que vale para o ano inteiro, as vezes uma pequena atitude que não parecem nada para a gente fazem muita diferença na vida de outra pessoa.

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  7. Olá
    Crônica linda e triste. Emocionante. Aprendi com meus pais e meus avós que devemos sempre ajudar a quem pudermos. Não necessariamente financeiramente, mas com um sorriso, uma conversa, uma gentileza feita e um estranho na rua. São pequenas coisas assim que tornam o mundo um lugar habitável.
    Beijos e boas festas


    Vidas em Preto e Branco

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  8. Belíssimo conto, fiquei até emocionada, nos passa uma lição de vida, para prestarmos mais atenção as pessoas a nossa volta, devemos interagir mais, alguém precisa dar o primeiro passo e muitas vezes precisam de ajuda. Ótimas festas.

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  9. Eu simplesmente adoro contos, e não pude não me emocionar com o final deste, realmente cada pequeno momento é decisivo para nova vida, e que devemos prestar mais atenção nas coisas, até as mais simples.

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