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Bear - Bianca Pinheiro

Sinopse: A pequena Raven tem um problema: de algum modo ela conseguiu se perder de seus pais e de seu lar. Em sua busca, ela se depara com um urso marrom (ou seria alaranjado?) que, apesar de rabugento, aceita ajudá-la nessa empreitada. A jornada desses dois acaba de começar. (Skoob)
PINHEIRO, Bianca. Bear. Editora Nemo, 2014. 64 p.

Bianca Pinheiro começou a publicar Bear em formato Webcomic, o que ainda faz hoje em dia. Vocês podem conferir, clicando aqui. Foi nesse formato que ela conseguiu ter seu trabalho conhecido e, posteriormente, publicado pela editora Nemo. O que também lhe abriu as portas para ser convidada por Maurício de Souza para escrever e desenhar a próxima versão da Mônica.


Mas eu conheci Bear de outra forma, três anos atrás, na FIQ BH de 2013. Foi paixão à primeira vista pelos traços de Bianca, e uma segunda paixão depois de li seu texto. Texto este que combina perfeitamente com a simplicidade e a inocência transmitida pelas formas arredondadas e fofas de cada personagem.


Os dois volumes de Bear têm, na sua essência, dois dos sentimentos mais nobres do ser humano: amizade e paternidade. Ao se perder de seus pais, Raven, a garotinha, encontra em Dimas, o urso, o suporte que precisa para iniciar uma busca por eles. Nessa jornada, Raven e Dimas encontram muitos outros personagens, que vão desde pessoas normais a animais falantes. Não há diferenciação no mundo criado pela autora, da mesma forma que não existe diferença na mente de uma criança, quando ela conversa com seu animal de estimação, ou melhor, seu animal amigo.


Mas as histórias de Bear não são apenas sobre os dois sentimentos mencionados acima, mas, também, deixam uma mensagem moral bem definida, clara o suficiente para ser compreendida em qualquer idade. Esse é um destaque importante na obra de Bianca Pinheiro. Não encaixo Bear no gênero infanto-juvenil, porque os temas abordados por ele são abrangentes em termos de idade, além de serem mais importantes para os adultos do que para as crianças.


As aventuras são recheadas de referências a games, quadrinhos, livros, séries e filmes, além de ótimas sacadas, que misturam a realidade com a fantasia, como quando a própria autora incorpora um dos personagens do livro. Existem outras participações especiais, que vou deixar para o leitor descobrir e se deliciar.


Um fato curioso é que a versão de Bear como Webcomic, possui alguns detalhes que passam despercebidos na edição impressa. Na Web, alguns dos desenhos foram feitos usando técnicas de movimentação, o que dá um charme e uma dinâmica maior na leitura. Também existem alguns extras e algumas explicações, dadas pela própria autora, quanto ao processo de criação e de desenvolvimento dos álbuns.


Bear é um dos melhores quadrinhos nacionais da atualidade, que merece, sem qualquer dúvida, a sua leitura. Apesar de todos os dois álbuns estarem disponíveis para leitura on-line, claro que você também comprará a versão impressa. O capricho da Nemo, inclusive no formato gigante da edição, é muito profissional e de excelente qualidade.


Depois da leitura, você entenderá como é fácil se apaixonar por essa garotinha e seu amigo urso! ;)

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Pílulas Azuis - Frederik Peeters

Sinopse: Nesta narrativa gráfica pessoal e de rara pureza, por meio de um roteiro simples e de temas universais (o amor, a morte), Frederik Peeters conta sobre seu encontro e sua história com Cati, envolvendo o vírus ignóbil que entra em cena e muda tudo, e todas as emoções contraditórias que ele tem de aprender a gerenciar: amor, raiva, compaixão. Pílulas azuis nos permite acompanhar, sem nenhum vestígio de sentimentalismo, através de um prisma raramente (senão nunca) abordado, o cotidiano de uma relação cingida pelo HIV, sem deixar de lançar algumas verdades duras e surpreendentes sobre o assunto. Apesar da seriedade do tema, Pílulas azuis é uma obra cheia de leveza e humor. Não é à toa que é considerada por muitos a obra-prima de Frederik Peeters. Uma das mais belas histórias de amor já publicadas. (Skoob)
PEETERS, Frederik. Pílulas Azuis. Nemo, 2015. 208 p.

A primeira vez que tive contato com a obra autobiográfica de Frederik Peeters, Pílulas Azuis, foi através de PDFs baixados na Internet. Na época, eu estava na faculdade e não tinha dinheiro para comprar álbuns importados. Ano passado, a editora Nemo lançou esta edição caprichada, com 10 páginas a mais, que contam o que aconteceu 13 anos depois do fim da história. Desta vez, finalmente, consegui ter este relato pessoal, dramático, emocionante e romântico do que é se apaixonar por uma pessoa soropositiva.


Fred conhece Cati em uma festa. Não existe conexão aparente entre eles e, pouco tempo depois, ela se casa com outro homem e tem um filho. Nos anos seguintes, Fred se encontra com ela diversas vezes de forma casual, mas sem nunca aprofundar o relacionamento. Até que ela se separa. Então, finalmente, eles descobrem que estão apaixonados.

E, nesse momento, o leitor desavisado que não leu a sinopse, como eu fiz anos atrás, leva um soco no estômago. Cati avisa a Fred que tem AIDS... bem como seu filho, que já nasceu soropositivo.


A partir daí, acompanhamos como é construído o verdadeiro amor, aquele que consegue passar por cima de obstáculos, que vão além do ordinário dia-a-dia. Não apenas o amor entre um homem e uma mulher, mas o amor de uma mãe, que se sente responsável por trazer ao mundo uma criança já doente, e o amor de um homem, que apesar de não gostar de crianças e não ser o pai biológico do filho de Cati, aprende o que é ser um e sofrer tanto quanto.

As três pílulas azuis que Cati e o filho precisam tomar diariamente, para não deixarem a doença evoluir, representam muito mais do que apenas reações químicas ou biológicas. Elas são a lembrança do quanto a vida é frágil e do quanto somos mortais.


Fred, cuja profissão é ser desenhista de quadrinhos, resolve usar sua arte para disseminar sua história, de Cati e de seu filho, de forma magistral. Seus traços construídos sobre riscos e em apenas duas cores, conseguem transmitir uma parte do que foi, e ainda é, a vida do trio.


Mais do que uma belíssima história, Pílulas Azuis é um relato verídico e obrigatório para todos os que encaram a AIDS como uma sentença de morte. A doença, hoje em dia, é totalmente controlável. Nossa medicina permite que os portadores do HIV levem uma vida normal, inclusive a parte sexual, sem riscos de que o parceiro, ou parceira, contraiam a doença. Isso fica extremamente bem explicado nos quadrinhos que mostram as conversas de Cati e Fred com o médico. As chances dele contrair a doença, se tomadas as devidas precauções, seriam as mesmas de encontrar um rinoceronte branco no meio da cidade.


Essa metáfora é aplicada de forma obscena de tão clara, quando Fred desenha o animal sempre nas suas costas. E também é extremamente corajosa e sincera a conversa que ele tem em sonho com um outro animal falante, que exibe o tamanho do peso que assombra o casal, mesmo sabendo de como estão seguros quanto à doença.

É a aquela máxima de que se você tem 1% de chance de pegar algo, existe a chance.


As 10 páginas extras, desenhas com uma arte diferente do resto do álbum, mas ainda pelo próprio Frederik, servem mais como um complemento educacional de como, 13 anos depois, todos estão saudáveis, de como o vírus desapareceu do sangue, apesar de ficar para sempre alojado nos gânglios, de como eles tiveram uma filha, através de inseminação artificial, e de como são felizes no amor de casal, de mãe, de pai, de filhos, de família!


Tente não chorar, se conseguir :P

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Os companheiros do crepúsculo - François Bourgeon

Sinopse: Os Companheiros do Crepúsculo se passa na Idade Média durante a Guerra dos Cem Anos. A história é centrada nos personagens do Cavaleiro, Mariotte e Anicet, em sua busca por redenção ou pela simples sobrevivência. Misturando fantasia e lutas sangrentas, cenas cotidianas e um tom de erotismo, um dos destaques desta obra-prima das HQs é o belo e detalhado traço do autor, que transporta os leitores para os cenários e o clima da época. Imperdível para quem gosta de grandes histórias e para os amantes da arte dos quadrinhos! (Skoob)

BOURGEON, François. Os Companheiros do Crepúsculo. Nemo, 2013. 240 p.

Passada na Idade Média, durante a Guerra dos 100 Anos, Os Companheiros do Crepúsculo é considerado um dos melhores álbuns de quadrinhos de todos os tempos e é uma leitura essencial para qualquer amante dos quadrinhos. Não apenas pela história, que mistura fantasia com acontecimentos normais para a época, mas também pelo erotismo, pela caracterização histórica, pelos detalhes dos cenários e objetos em cada quadrinho, pela qualidade dos desenhos e das cores, frias como o coração da maioria dos personagens. Sim, porque a crueldade está tão presente quanto a delicadeza, talvez até em maior quantidade.


Certos trechos são difíceis de ler e olhar. Ao contrário de um livro, não podemos imaginar determinada cena com um aspecto menos repugnante do que o autor transmite. Os desenhos de Bourgeon deixam bem claro o que as palavras poderiam deixar passar. Aí você tem que olhar para o lado para seu estômago não revirar. O pior é que, se você pesquisar os anos em que a história se passa, ficará ainda mais chocado ao constatar que era exatamente assim que as pessoas viviam e agiam.


Mariotte é uma jovem e bela camponesa que vive sendo hostilizada pelos habitantes de sua vila. Tudo, porque ela é criada pela avó, de quem todos suspeitam ser uma bruxa. É fácil se apaixonar pela imoralidade e inconsequência de Mariotte, mesmo que isso acarrete a morte de inocentes. Logo no início da história, o leitor se depara com o que isso significa. Os quadrinhos que mostram o resultado de uma vingança, inicialmente inocente, são de chocar. Mesmo assim, compreendemos as atitudes da jovem, uma vez que antes desse acontecimento, o autor nos descreve pelo que ela passa diariamente e o quanto de raiva que ela acumula.


Anicet é um outro jovem morador da vila e o principal perseguidor de Mariotte. Ao longo da história fica claro que ele é apaixonado pela moça, mas sua covardia e desonestidade só causa um afastamento cada vez maior dela. No início, antipatizei com o personagem. Ao contrário de Mariotte, é fácil odiar Anicet, que faz qualquer coisa para sobreviver, sem se importar com os dois companheiros ou com qualquer outra pessoa. Mas aí me localizei no local e época em que eles vivem, onde a selvageria e o individualismo eram maiores do que qualquer racionalidade ou sentimento, e, aos poucos, ele se tornou menos antipático.


O Cavaleiro é o terceiro personagem e é quem resgata Mariotte e Anicet do que restou da vingança da moça. Ele é um homem de rosto tão deformado quanto sua alma. Isso devido a um erro que cometeu e que custou a vida da mulher que amava. Usa o elmo de sua armadura durante a maior parte do tempo, mas mesmo quando está sem ela, os enquadramentos e posições desenhadas por Bourgeon escondem a parte desfigurada do rosto. Suas atitudes, ao contrário de Mariotte e Anicet, são sempre calculadas para um objetivo: se redimir e condenar os responsáveis pelo erro que cometeu.


O Cavaleiro, Mariotte e Anicet são completamente diferentes entre si. Tanto em personalidade quanto em moralidade. Juntos, vivem três aventuras divididas nos álbuns lançados entre 1984 e 1991: O Sortilégio do Bosque das Brumas, Os Olhos de Estranho da Cidade Glauca e O Último Canto das Malaterre. A edição lançada pelo Nemo reúne os três, o que torna o entendimento da história mais fácil. Isso, porque a realidade do que passam se confunde com aventuras repletas de seres fantasiosos, que vivem em lugares que não deveriam existir.


O último álbum é o que contém a aventura mais longa, a mais verídica e a mais cruel. Sem seres fantásticos, os três precisam lidar com inimigos mortais, que não possuem qualquer pudor em matar, molestar e trair. E percebemos, por se tratar da última parte, que qualquer um dos três pode terminar morto nas mãos deles.

Cada quadrinho de Os Companheiros do Crepúsculo deve ser apreciado com cautela, porque os detalhes são muitos. Não leia como se fosse um gibi de heróis, do contrário vai ser perder na sequência de eventos e deixar passar as mensagens escondidas nos cantos de linhas retas. Os diálogos são complexos e cheios de informações; os desenhos, exprimem os olhares de cada personagem com dualidade, deixando o leitor sem saber em quem pode ou não confiar, o que demonstra a genialidade do autor.


Os Companheiros do Crepúsculo, apesar de ser uma leitura obrigatória, não é fácil de ler e nem é para qualquer pessoa. A crueldade e frieza da época podem incomodar os mais sensíveis. Mas não são assim a melhores obras de arte? O que elas conseguem causar em quem as admira?

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