O lado mais sombrio - A. G. Howard

Sinopse: Alyssa Gardner ouve os pensamentos das plantas e animais. Por enquanto ela consegue esconder as alucinações, mas já conhece o seu destino: terminará num sanatório como sua mãe. A insanidade faz parte da família desde que a sua tataravó, Alice Liddell, falava a Lewis Carroll sobre os seus estranhos sonhos, inspirando-o a escrever o clássico Alice no País das Maravilhas. Mas talvez ela não seja louca. E talvez as histórias de Carroll não sejam tão fantasiosas quanto possam parecer.
Para quebrar a maldição da loucura na família, Alyssa precisa entrar na toca do coelho e consertar alguns erros cometidos no País das Maravilhas, um lugar repleto de seres estranhos com intenções não reveladas. Alyssa leva consigo o seu amigo da vida real o superprotetor Jeb , mas, assim que a jornada começa, ela se vê dividida entre a sensatez deste e a magia perigosa e encantadora de Morfeu, o seu guia no País das Maravilhas.
Ninguém é o que parece no País das Maravilhas. Nem mesmo Alyssa... (Skoob)
HOWARD, A. G. O lado mais sombrio. Splintered #1. Novo Conceito Editora, 2014.


Eu sempre tenho minhas desconfianças quando um livro é publicado com muito alarde. Não que ele não possa ser bom só por causa dessa avalanche midiática, mas a tendência é de que as expectativas fiquem lá em cima e a leitura seja frustrante. Mesmo assim, a capa linda de O Lado Mais Sombrio e o fato de ser uma releitura de um clássico me convenceram a não esperar muito e iniciar logo a leitura do livro escrito por A. G. Howard. Sinceramente? Arrependo-me de não ter lido antes.

Nunca fui fã de Alice no País das Maravilhas, confesso. A história de Lewis Carroll sempre foi maluca demais para minha cabeça lógica, e eu sempre empacava em alguns pontos que deixavam de ter sentido. Achei que essa era uma impressão que havia impregnado em mim desde criança, e que talvez pudesse ser mudada, mas mesmo com a nova versão do filme em 2010, por exemplo, a impressão se manteve.

Só que O lado mais sombrio é uma visão completamente nova sobre a obra: é contemporâneo, e Alyssa, protagonista desta releitura, poderia ser como qualquer adolescente, não fosse o fato de ouvir plantas e insetos. Essa singularidade é algo que assombra todas as mulheres descendentes de Alice Lindell, a garota que inspirou o livro de Carroll. Para salvar sua mãe e a si mesma da loucura, Alyssa precisa encontrar o País das Maravilhas e desfazer todos os erros de Alice, a única forma de quebrar a maldição.

"Depois da morte da mãe, Alison foi criada por uma variedade de parentes. Meu pai acha que essa instabilidade contribuiu para sua doença. Sei que é mais do que isso, sei que é algo hereditário, por causa dos meus pesadelos recorrentes e dos insetos e plantas. E ainda há a presença que sinto por dentro. Aquela que vibra e me obscurece quando estou com medo ou hesitante, me incitando a ir além dos meus limites." (p. 24)

O livro é descrito em primeira pessoa pela protagonista, e o tom juvenil fica claro durante a narrativa. Neste aspecto, a autora conseguiu alcançar o tom certo, já que, ao mesmo tempo que Alyssa se embrenhava em uma aventura num mundo desconhecido, ela descobria a si mesma, sua força, e vivia seu primeiro amor com a maturidade de uma garota da sua idade.

O País das Maravilhas é tão “problemático” quanto eu lembrava. Os seres são diferentes, desconhecidos, e isso deixa o leitor apreensivo, já que não se sabe o que esperar. Da mesma forma, não se sabe em quem confiar. A “Lagarta” não é nada como poderíamos imaginar, e não se sabe se seus conselhos servem para ajudar ou têm um objetivo diferente do que parecem ter. É como se, durante toda a história, Alyssa precisasse tomar cuidado, já que nem tudo é o que parece.

"[...] Às vezes penso que não estou sozinha em minha própria cabeça, que há partes de outra pessoa lá dentro, alguém que me incita a seguir além dos limites." (p. 16)

Essa incerteza, porém, é o que dá mais charme ao enredo, visto que a curiosidade fica aguçada para que se desvende os segredos, para ver onde a trama levará. Howard conseguiu recriar o País das Maravilhas sem perder a essência, mas com um olhar inovador. Um olhar mais sombrio, meio gótico, que pode transformar todas as Maravilhas do mundo de Carroll em algo amedrontador.

As aventuras de Alyssa são inconstantes, imprevisíveis, devastadoras... e apaixonantes. Também pudera, se a garota tem dois personagens tão diferentes e opostos como companhia. Jebediah é o porto seguro, o amigo que sempre esteve ao seu lado, aquele por quem sempre foi apaixonada, aquele com quem sempre pode contar, racional e maduro - mas que namora outra garota. Pelo olhar de Alyssa, não se pode ficar imune ao encanto de Jeb. Do outro lado, Morfeu é instável, arrogante, desleal, mas tem um passado e um comportamento que conseguem derrubar as barreiras de Alyssa. É ele também o responsável por despertar o lado negro da protagonista.

"Jeb é estável, forte e genuíno - meu cavaleiro em sua armadura reluzente. Morfeu é egoísta, suspeito e sublime - o caos encarnado. Impossível comparar.
E aqui estou eu, a união de tudo isso. A luz e a escuridão ao mesmo tempo. Caso eu cedesse a um de meus lados, será que eu teria de abdicar do outro? Meu coração dói ao pensar nisso. De alguma maneira, sinto que preciso dos dois para estar completa." (p. 269)

Fiquei fascinada pelo novo País das Maravilhas criado por Howard. A narrativa rica em detalhes, as descrições de seres diferentes e assustadores, as paisagens exuberantes e a lógica do enredo, envolveram-me por inteiro nessa fantasia. O final foi quase perfeito, não fosse um pequeno detalhe que ficou em aberto, mas a história poderia terminar por aqui mesmo. Ainda assim, a trama é tão viciante que, no mesmo dia que terminei a leitura, corri para ler A mariposa no espelho, que nos dá apenas mais um pouquinho de Jeb e de Morfeu. E, agora, Atrás do Espelho me aguarda.



Ju - Conjunto da Obra
Ju - Conjunto da Obra

Apaixonada pela leitura desde a infância, tantos livros lidos que é impossível quantificar. Alguém que vê os livros como uma forma de viajar o mundo e lugares mais incríveis que possam ser criados pela imaginação, sem precisar sair do lugar. Tem o blog como uma forma de dividir experiências e, principalmente, as emoções que as leituras despertaram, para compartilhar idéias e aproveitar sugestões de leitura, envolvendo mais e mais pessoas em um mundo onde a imaginação não tem limites.

6 comentários:

  1. Adorei a sua resenha! Concordo com o que disse sobre o livro, O lado mais sombrio é um dos livros mais legais que li esse ano e eu fiquei encantada pelo País das Maravilhas criado pela Howard.

    Beijos
    http://palavrasdeumlivro.blogspot.com.br/

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  2. Desde quando lançou eu quis ler O Lado Mais Sombrio, mas eu também sinto uma repulsa por Alice no País das Maravilhas, então estou enrolando para ler, mas acho que vou dar uma chance!

    Beijos
    http://deiumjeito.blogspot.com.br/

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  3. Oi, Julia!
    Eu não gostei tanto deste livro por esperar demais. Acreditava que seria uma leitura bem mais interessante do que realmente foi.
    Não curti o triângulo amoroso, apesar de que fiquei indeciso. rs
    Não sei quando lerei o segundo livro. Ah, e achei a autora prolixa desnecessariamente.
    Abraço!

    "Palavras ao Vento..."
    www.leandro-de-lira.com

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  4. Oi, Ju!
    Acho a capa desse livro lindaaaa e mega chamativa. Tenho curiosidade em ler, apesar de não ser a maior fã de Alice no País das Maravilhas, confesso. Mas é uma aquisição futura.

    Beijo

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  5. Já tinha visto um pessoal surtando sobre esse livro no Goodreads e agora, com sua resenha, fiquei mais curiosa. A capa linda é um incentivo para ter minha atenção, mas o conteúdo (ou pelo menos, senti isso) parece ser legal também. OH, DEUS, O QUE FAZER AGORA? Aguardar em uma tortura silenciosa, com essa lista sem fim de livros para comprar/ler.
    Mas bom, sua resenha me deixou bem curiosa e agora, se tiver a oportunidade, vou ver se consigo esse livro :P

    Beijos,
    Vitória
    Cabeças de Vento

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  6. Oi Ju
    Agora você me deixou mais curiosa. Desde que esse livro foi lançado eu estou com vontade de Lê-lo, mas ainda não o comprei.
    Eu gosto desse contexto de Alice, e pelo que você comenta o livro parece ser fantástico que realmente nos faz viajar, aiii, eu adoro isso. Quero ler.

    Amei sua resenha.
    Beijinhos

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