Reencontro - Leila Kruger

Sinopse: "Está bem no fundo. Não se pode alcançar... aos poucos, vai roubando o ar.” Ana Luiza vai perdendo seu fôlego: o fim de (mais) um grande amor, um pai distante, uma mãe fútil, uma amizade complexa e "pessoas que sempre vão embora". Com suas músicas de rock, seus livros e seus cigarros, Ana Luiza vê sua vida desmoronar. "O amor é uma ferida”, ela sentencia. Mas a “garota de olhar longínquo” tem um encontro inesperado com um alguém aparentemente muito diferente dela: os “olhos imensos”, que tudo veem... Presa em seu próprio mundo e rendida ao álcool e às drogas, Ana Luiza tenta fugir. Principalmente do temido amor, que tanto a feriu...  Como encontrar, ou reencontrar o próprio destino? Até onde o amor pode ir, até quando pode esperar? O que há além das baladas de rock e dos poemas românticos? Poderá o amor salvar alguém de sua própria escuridão? Às vezes, é necessário perder quase tudo para reencontrar... e finalmente poder amar. (Skoob)

KRUGER, Leila. Reencontro. Novo Século, 2011. 496 p.

Você se olha no espelho e não há ninguém ali que valha a pena identificar. Por mais bonito que você seja, a única coisa que você vê é algo feio, vazio, sem propósito, imperfeito. Não há nada naquele reflexo que justifique respirar. Você fecha os olhos e sente a dor. O aperto no peito, a dificuldade em respirar, o desespero, a solidão, mesmo estando rodeado de pessoas que te amam. Você mantém os olhos fechados e se deita, embora as pernas tenham força para te manter em pé. Você sente as lágrimas caírem, os lábios tremerem e sabe que não há nada que faça elas pararem. Sabe que a única coisa capaz de fazer isso, é dormir. E luta para conseguir. E se não consegue ter esses breves momentos de inconsciência, que ajudam você a se manter respirando, então pensa no que pode fazer para que eles aconteçam. E então vêm as más ideias. Elas não são uma saída covarde. Elas são a solução para uma dor que não passa tomando remédios. Mesmo dormindo, você sabe que a dor estará lá quando acordar. Então, você faz o que for preciso para acabar com esse sofrimento.

Isso se chama depressão.

Não existe uma causa específica para se ter depressão. Ela simplesmente explode em seu peito e te arrasta para uma escuridão sem fim. Não existe conversa lógica que te convença de que o que sente não faz sentido. Que os problemas podem ser resolvidos. Que você é uma boa pessoa e que só está passando por uma fase difícil. Nada disso adianta, porque a dor e o desespero permanentes não deixam. Pode ser o fim de um namoro, a saída de um emprego, a perda de um ente querido ou um amigo. Pode ser, simplesmente, porque um dia você se olha no espelho e se acha feio. Algo explode em seu cérebro, na sua alma, e você se quebra. E acha que nada poderá juntar seus pedaços novamente.

"Seria mais fácil se ela pudesse deletar as coisas de sua cabeça como se deletava um Orkut... ou um contato do MSN... um número de celular. Mas não era assim. Não havia botões... o botão verde contra a dor. Só apertar e descansar. Um botão verde de emergência para o coração. Um coração sem memória."

Ana Luiza, a personagem de Reencontro, enfrenta esse problema, com o agravante do consumo de álcool e drogas. É difícil para quem nunca viu alguém em depressão entender os motivos que a levaram tão longe. Todos temos desilusões amorosas. Todos, em algum momento, presenciamos discussões dos nossos pais. Todos perdemos alguém de quem gostamos. Mas por que só alguns não conseguem suportar? Não há uma explicação para isso. Nem os terapeutas sabem dizer o que leva uma ou outra pessoa a se entregar para tanto sofrimento.

Para mim, acompanhar a trajetória de Ana Luiza foi agonizante, mas é reconfortante encontrar no livro a única coisa que realmente consegue tirar alguém da depressão. Não são os remédios nem as terapias que fazem isso, mas o amor. Não o amor de pai e mãe, não o amor de amigos, não o amor de filha, mas o amor entre um homem e uma mulher. Esse é o único amor que consegue injetar em quem está deprimido a esperança de que não é tão pouco, que ainda vela apena viver.

Por quê?

Porque amor de pai e mãe é incondicional, não vale. Amor de amigos é insuficiente, porque amigos ficam ao seu lado mesmo que você seja tão fraco e imperfeito. Mas o amor de alguém que sente desejo por você, esse amor mostra que você tem algo que vale a pena lutar, algo que pode ser admirado e que pode fazer a diferença para outro alguém ser feliz. Você se sente importante, você encontra um motivo para se levantar, parar de chorar e acreditar que ainda existe algo dentro de você que presta.

"Ana Luiza ficou no mínimo meia hora decidindo se ia levantar. Foi ao banheiro, urinou sem ânimo; confrontou sua cara inchada no espelho, atirou água nela como se a agredisse. Olhou-a outra vez no espelho... e arregalou os olhos. Procurando nuvens escuras que giravam devagar como redemoinhos. Olhou bem dentro de seus olhos. Concentrou-se, avaliou... Se havia nuvens, teria de encontrá-las. Mas ela não sabia ainda ver... Só sabia sentir. Ela só sabia sentir a chuva, e não via as nuvens..."

Rafa é a representação desse amor para Ana Luiza. É ele quem inicia sua subida e que justifica sua luta para conseguir se recuperar, ou reencontrar. Sem Rafa, Ana Luiza não teria motivo para lutar. Mas não só porque ele diz que a ama, mas porque é verdadeiro. É um amor sem interesses. Um amor que usa o respeito e a confiança para solidificar sua base. Só assim é possível salvar alguém definitivamente da depressão.

Tudo o que fazemos, de bom ou ruim, tem consequências. Para nós ou para quem nos rodeia. Ana Luiza aprende isso da pior forma. Às vezes aquele telefonema que você recusa, a preguiça que evita você sair numa tarde, ou a resposta mais rude a alguém, pode direcionar a vida para um resultado desastroso. Mesmo você não tendo culpa direta, sempre fica a dor na consciência de que poderia ser diferente. E tudo o que você faz de ruim com você mesmo, um dia é cobrado. Seu corpo e sua mente cobram.

"Em dez de outubro, dia de céu nublado, ela se sentira feliz como há muito tempo não se sentia. Ela flutuava, seu corpo finalmente pairava. Por um momento nada faltara a ela. E por um momento ela não tivera medo. Na primavera tudo renascia... mesmo que não houvesse muito sol. Havia força."

A parte final de Reencontro demonstra que o fim de um processo pode ser mais doloroso que todo o seu conjunto, mas que se você tiver quem te ama, de verdade, você consegue se levantar, se reencontrar, se reconstruir e recriar uma vida que pensou que não poderia ter.

Curioso que disse isso no texto do dia dos namorados de sexta-feira, mas, no fim, tudo que você precisa para se manter em pé, é acreditar em você mesmo e em que te ama. Com isso, você consegue ser feliz.

Reencontro, principalmente para quem já conheceu a depressão, é uma leitura que traz a confirmação de que você pode ser um vencedor sobre uma doença que não é compreendida pela maioria das pessoas, mas que existe e te destrói por dentro.
Carlos H. Barros
Carlos H. Barros

Carlos tem várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamenta o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco -, e não saber desenhar. Autor também do blog Gettub

14 comentários:

  1. Oi Carlos, ótima resenha!
    Como comentei contigo, já tinha lido o livro, e achei ele bem intenso, apensar de ser, como você mesmo disse, agonizante. às vezes dava vontade de trazer a personagem de volta à realidade, fazê-la ver as coisas como elas eram de verdade, mas como você falou, isso seria inútil.
    Acho que o papel mais importante do Rafa na vida da Ana Luiza foi mostrar a ela como amar a si mesma, a ver-se por inteira, e isso aconteceu através do amor.

    Beijos

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    1. Obrigado, Ju! :)

      Acho que o segredo está aí: ela vê o amor de Rafa por ela e descobre que ela também pode se amar.

      Bjs!!!

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  2. Oie
    Eu lembro que quando li este livro, foi muito intenso e eu adorei como foi se desenvolvendo a historia. Foi um livro que me marcou. Bjs

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    1. Oi, Nessa!

      Sempre por aqui :) Ainda bem!

      Beijão pra vc!

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  3. Oie Carlos =)

    Já li O Reencontro a algum tempo e embora a narrativa seja um pouco pesada eu achei a história muito bonita.

    Ótima resenha!


    Beijos;***

    Ane Reis.
    mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
    @mydearlibrary

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    1. Olá, Ane!!!

      Só descobri esse livro recentemente. Nem sabia de que ano era seu lançamento. Na verdade, pensei que havia sido lançado este ano...rssss

      Bj pra vc!

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  4. adoreiiii tua resenha! ja li o livro e mds ameiii, sinceramente me surpreendi com ele, li ele rapidao e olha q eh grosso, ain mais nada pra falar pq tu disse tudo na resenha
    tonsdeleitura.blogspot.com

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    1. Lud, tanta gente me disse que já havia lido Reencontro...rsssss Acho que só eu não havia lido!!!!

      Abração

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  5. um livro com uma mensagem linda e verdadeira. que o amor simples, na sua forma mais intensa, no meio da dor, da dificuldade, é a redenção, é a salvação de uma pessoa. a personagem tá imersa numa tristeza sem fim, depressão ñ é frescura. através do amor de Rafa é que Ana Luiza se reencontra. com certeza vou procurar lê-lo o quanto antes.

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    1. Oi, Aninha!

      Tem toda razão, depressão não é frescura, é uma doença grave e de difícil tratamento.

      Bj Aninha!

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  6. Oie Carlos
    já faz alguns anos que li esse livro, mas ele me marcou imensamente. é um dos meus favoritos da vida. Que resenha repleta de sensibilidade. Com certeza descreveu o livro perfeitamente.
    bjos
    www,mybooklit.com

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    1. Obrigado, Jacqueline!

      Aguardo sua próxima visita ;)

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  7. Nossa que livro intenso, realmente a depressão é uma doença super incompreendia pela grande maioria das pessoas, fiquei bastante interessada em conferi essa história, foi pra lista de leituras.

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