Musashi - Eiji Yoshikawa

Sinopse: Este romance épico baseado diretamente na história japonesa narra um período da vida do mais famoso samurai do Japão, que viveu presumivelmente entre 1584 e 1645. O início é antológico, com Musashi recuperando os sentidos em meio a pilhas de cadáveres do lado dos vencidos na famosa batalha de Sekigahara. Perambula a seguir em meio a um Japão em crise onde samurais condenados ao desemprego e à miséria por senhores feudais derrotados semeiam a vilania ditando a lei do mais forte. Musashi será mais um dentre estes inúmeros pequenos tiranos, derrotando impiedosamente quem encontra pela frente até que um monge armado apenas de sua malícia e alguns preceitos filosóficos zen-budistas consegue capturá-lo e pô-lo rudemente à prova. Musashi consegue fugir graças a uma jovem admiradora, para ser novamente capturado, e agora fica três anos confinado numa masmorra onde uma longa penitência toda feita de leituras e reflexões o fará ver um novo sentido para a vida assim como novos usos para sua força e habilidade descomunais. Os caminhos rumo à plenitude do ser jamais são fáceis, e em seus anos de peregrinação em busca da perfeição tanto espiritual quanto guerreira enfrentará os mais diversos adversários, tendo inclusive que sair-se várias vezes de situações desesperadoras. É numa dessas situações que, totalmente acuado, usará pela primeira vez, em meio ao calor da luta e quase inconscientemente de início, a surpreendente técnica das duas espadas, o estilo Niten ichi, que o tornaria famoso pelo resto dos tempos. (Skoob)
YOSHIKAWA, Eiji. Musashi. Estação Liberdade, 1999. 1788 p.


Musashi não é uma leitura fácil. E não digo isso pelas 1800 páginas, divididas em três volumes. Não é fácil, porque você irá ler decisões e ações baseadas numa cultura extremamente fiel a seus costumes e dona de ideais que os ocidentais muitas vezes não compreendem. Mas mais que isso, você irá ler um romance baseado em um personagem real, que tomou as decisões que o romance conta e que criou um estilo ímpar de luta com duas espadas, o Niten Ichi Ryu.

No livro, Yoshikawa cria alguns personagens e os mistura com os reais, seguindo a sequência de eventos da vida de Musashi, cujo nome de nascença era Shinmen Takezō, e viveu o caminho do guerreiro, chamado de bushido, entre 1584 a 1645, época em que as lutas de espada eram, aos poucos, substituídas por armas de fogo rudimentares.

"O pé direito de Musashi recuou cerca de trinta centímetros. Acompanhando o movimento do pé, seu corpo e ambos os braços giraram instantaneamente para a direita. Ato contínuo, a ponta da espada, que havia percorrido a linha do pescoço do menino Genjiro e acabava de retornar à posição original, tornou a saltar com um zumbido, agora para cima, e seguido de um vigoroso kiai, atingiu inicialmente o cotovelo do ancião - que vinha nesse instante descrevendo um movimento descendente - e depois o seu rosto."

O caminho de Musashi era percorrer o país procurando um adversário famoso de forma a aperfeiçoar sua técnica, ou morrer. Nessa jornada, enfrentou dezenas de oponentes e nunca foi derrotado. A sua técnica com duas espadas começou a surgir nas lutas com vários adversários simultâneos, uma vez que usava as duas mãos para conseguir atacar e defender.

Essa é uma diferença que espanta na narrativa: as lutas. Elas não são descritas de forma circense, como nos filmes. Os oponentes se avaliam e atacam, um único golpe, e acabou. Nesse golpe, feito com espadas afiadíssimas, corta-se uma cabeça, ou um braço, ou o tronco. Não existe chance para um segundo ataque.

"Musashi nunca tivera um mestre, fato que, sob o ponto de vista do aprendizado, representara boa dose de sofrimento e certo grau  de prejuízo; visto de um outro prisma, porém, não ter um mestre havia sido uma vantagem."

Por conter fatos reais, existem partes que espantam e deixam uma dúvida moral sobre as ações de Musashi. Ele não deseja apenas aprimorar seu estilo, ele deseja ser um mestre na arte dos duelos. Na vida real, às vezes, para vencer, você precisa atacar o emocional do adversário e, para isso, também às vezes, é necessário escolhas que não são moralmente bem aceitas. O leitor, nesses momentos, precisa compreender a época e o estilo de vida do povo japonês. Não é possível julgar as atitudes de Musashi pelos nossos padrões. Nem as decisões pessoais que ele faz. Seu maior amor é a espada e isso ele diz de forma bem clara em um trecho, que nos choca pela dor dessa escolha.

Musashi é considerada uma das mais importantes obras literárias japonesas. É particularmente interessante acompanhar as mudanças do período histórico que os personagens vivem durante o romance. O autor descreve cada passagem com detalhes da política e da ordem militar, deixando o leitor ciente do ambiente em que cada ação se passa, mas sem se estender além do necessário. A forma da escrita de Yoshikawa é simples e, às vezes, ingênua na descrição das motivações dos personagens. Penso que isso se deve ao costume do autor na sua própria cultura, que acha tão natural cada fato.

"Mas eis que Musahsi surgia impávido pelo portão, expondo-se sem qualquer tipo de camuflagem à luz dos archotes. A visão tinha disso tão inesperada e os espantou tanto que ninguém se lembrou de se adiantar e barrar-lhe o caminho."

O valor existente nas páginas dos livros não é apenas literário ou cultural. É um guia de estratégia para duelos. A obstinação dele pelas técnicas de combate e na busca de conhecimento é impressionante. Ele não foi só admirável na espada, mas também na escrita, na pintura e até como escultor.

Conhecer a vida de Musashi é uma aventura única. Recomendo, apenas após a leitura da obra, procurar conhecer os fatos históricos. São impressionantes e parecem saídos de uma obra de ficção! 

Importante: não faça isso antes, porque sofrerá spoilers gigantescos!
Carlos H. Barros
Carlos H. Barros

Carlos tem várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamenta o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco -, e não saber desenhar. Autor também do blog Gettub

4 comentários:

  1. Oi Carlos, bem diferente o livro que você escolheu para comentar essa semana, mas interessante também. Já tinha ouvido falar sobre ele porque conheço pessoas que gostam de artes marciais, e é um dos livros indicados para quem pratica. Não sei se eu, pessoalmente, leria, mas acredito que se pode conhecer muito da cultura oriental por ele.

    Beijos

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    1. Oi, Ju!
      Sabe o curioso? Nós não temos a menor ideia do que representa o manejo da espada, e do corpo como arma, para os orientais da época. É um conceito de vida que não conhecemos e não entendemos. Mais do que artes marciais, a obra nos ensina o quanto as escolhas são importantes para nós e para os que nos rodeiam.
      Bjs

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  2. a cultura oriental é bem rica, densa e como vc bem disse, muitas vezes fica complicado um ocidental entender e aceitar certas coisas. mas sempre vi algo poético nisso, mesmo que o desfecho não seja feliz. não seria um livro que eu correria pra ler, mas acredito que agradará a muitos.

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    1. Oi , Aninha!
      Antes de tudo, para ler Musashi você tem que ter a mente bem aberta para aceitar as decisões que eles tomam rsssssss
      Abs e obrigado pela visita :)

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