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A Criança no Tempo - Ian McEwan

Sinopse: Do autor de Reparação e Enclausurado e vencedor do Man Booker Prize, um romance contundente sobre a dor do desaparecimento de um filho. Numa ida rotineira ao supermercado, Stephen Lewis, escritor bem-sucedido de livros infantis, se depara com a maior agonia de um pai: Kate, sua filha de três anos, desaparece sem deixar rastros. Numa imagem terrível que se repete ao longo dos anos seguintes, ele percebe que a garota não vai voltar. Com ternura e sensibilidade, Ian McEwan nos leva ao território sombrio de um casamento devastado pela perda de um filho. A ausência de Kate coloca a relação de Stephen e de sua esposa Julie em xeque, enquanto cada um deles enfrenta à sua maneira uma dor que só parece se intensificar com o passar do tempo. Vencedor do Whitbread Award, A criança no tempo discute temas como ausência, luto, culpa e as marcas indeléveis que um acontecimento pode deixar em uma família. Um romance surpreendente de um dos melhores escritores de sua geração. “Sua obra-prima.” — Christopher Hitchens “Somente Ian McEwan poderia escrever sobre a perda com tamanha honestidade.” — Benedict Cumberbatch “Fiel à realidade psicológica: as belas camadas dos relacionamentos, o amor multifacetado entre pai e filho, marido e mulher… Tão artisticamente concebido quanto pungentemente executado.” — The New York Times Book Review (Skoob)

Livro recebido como cortesia da Editora
MCEWAN, Ian. A Criança no Tempo. Companhia das Letras, 2018. 288 p.


A Criança no Tempo conta a história de Stephen e Julie, um casal que perdeu a pequena filha, Kate, na fila do caixa de um supermercado. O protagonista da história é o pai, que por um acaso é escritor de livros infantis. Apesar de terem se passado dois anos, o homem ainda procura, agora involuntariamente, por crianças pequenas na rua, na esperança de que uma delas seja a filha perdida. A mulher, Julie, é música e entra em uma depressão profunda após o desaparecimento da menina, se isolando do mundo.

“Qualquer menina de cinco anos – embora os garotos também servissem – emprestava substância à sua continuada existência. Nas lojas, ao passar pelos parquinhos, na casa de amigos, ele não podia deixar de procurar por Kate em outras crianças, ou nelas ignorar as lentas mudanças, as competências crescentes, ou deixar de sentir a potência irresistível de semanas e meses, do tempo que devia ser dela. O crescimento de Kate tinha se transformado na própria existência do tempo. Seu crescimento espectral, o produto de uma tristeza obsessiva, era não apenas inevitável – nada era capaz de fazer parar o relógio fibroso – mas necessário. Sem a fantasia de sua continuada existência, ele estava perdido, o tempo pararia. Era o pai de uma criança invisível.”

Após passar por um trauma de tamanha proporção, não é preciso dizer que o mundo do casal é completamente abalado e cada um tenta sobreviver de maneiras diferentes, separados um do outro. O tempo, ou a noção dele, é um pouco perdida, o que simboliza bem a forma como a tragédia afeta os personagens. Vemos, ao mesmo tempo, um pouco do passado, do presente, e até mesmo do futuro, o que pode nos ambientar de maneira fantástica na história ou nos deixar completamente perdidos.

Não vou mentir, para mim a leitura foi muito difícil, um pouco pela temática e um pouco pela forma como o autor nos conta a história. Tem sido um mês difícil para mim nas leituras e a monotonia do livro não ajudou muito. Não é uma história ruim, mas pela sinopse eu esperava mais, achei que ficaria mais envolvida com os personagens e com a trama.

O livro foi escrito na década de 80, então tem muitos elementos aos quais eu não estou acostumada e, por um lado, eu tento ler coisas novas, novos gêneros para não ficar sempre no mesmo clichê mas, por outro, não consegui me concentrar na leitura então tive que reler muitas vezes a mesma página para entender o que estava acontecendo. Isso afetou muito a compreensão da obra como um todo, fazendo com que eu não conseguisse aproveitar a leitura da forma como deveria.

De uma forma geral, o autor descreve muito bem os sentimentos dos personagens e retrata da forma mais autêntica possível como um casal é abalado após a perda de um filho. Eu particularmente nunca passei por nada parecido, mas infelizmente conheço quem já passou por isso, de uma forma diferente, mas a perda de alguém tão querido que ainda tinha uma vida inteira pela frente não é nada fácil. Então, acredito que o autor relatou tudo de forma que pudéssemos realmente compreender os sentimentos dos personagens e o que os levou a se sentir de tal forma.

“Ao ver os rostos dos pais, Stephen não reparava tanto nos efeitos da idade mas na devastação causada pelo desaparecimento de Kate. Ela agora era raramente mencionada, razão pela qual tanto se surpreendera vinte minutos antes. A perda da única neta tinha embranquecido os cabelos do pai em dois meses, enquanto os olhos da mãe se afundaram em meio às rugas. Os anos da aposentadoria haviam sido construídos em torno da neta, para quem aquela sala fora um paraíso de objetos proibidos. Ela podia passar meia hora sozinha, o queixo apoiado no aparador, costurando obscuros diálogos em que fazia as vozes da bicharada em chiados agudos. Exceto pelos sinais físicos, Stephen não flagrara o sofrimento de seus pais. Eles não desejavam deixar o fardo dele ainda mais pesado. Era típico daquilo que os unia o fato de nunca terem sido capazes de chorar juntos por Kate. Pronunciar seu nome, como o pai fizera, significava romper uma regra não escrita.”

Foi a primeira obra de Ian McEwan que li e espero ter a oportunidade de ler outra história do autor para entender melhor seu estilo. A Criança no Tempo, para mim, foi uma leitura difícil e pesada, mas para quem gosta do estilo vale muito a pena.

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Anna Kariênina - Liev Tolstói


Sinopse: Em tradução de Rubens Figueiredo, com posfácio de Janet Malcolm, a obra-prima de Liev Tolstói retrata o caso de infidelidade da aristocrata Anna Kariênina, tendo como cenário uma Rússia decadente. "Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida é feita de sombra e de luz”, escreve Liev Tolstói no romance que Fiódor Dostoiévski definiu como "impecável”. Publicado originalmente em forma de fascículos entre 1875 e 1877, antes de finalmente ganhar corpo de livro em 1877, Anna Kariênina continua a causar espanto. Como pode uma obra de arte se parecer tanto com a vida? Com absoluta maestria, Tolstói conduz o leitor por um salão repleto de música, perfumes, vestidos de renda, num ambiente de imagens vívidas e quase palpáveis que têm como pano de fundo a Rússia czarista. Nessa galeria de personagens excessivamente humanos, ninguém está inteiramente a salvo de julgamento: não há heróis, tampouco fracassados, e sim pessoas complexas, ambíguas, que não se restringem a fórmulas prontas. Religião, família, política e classe social são postas à prova no trágico percurso traçado por uma aristocrata casada que, ao se envolver em um caso extraconjugal, experimenta as virtudes e as agruras de um amor profundamente conflituoso, "feito de sombra e de luz”. (Skoob)
TOLSTÓI, Liev. Anna Kariênina. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2017. 840 p.


A minha vontade de ler Anna Kariênina surgiu, serei honesta, quando a Companhia das Letras o colocou entre as opções do mês para os parceiros e eu fui procurar saber um pouco mais sobre o livro. Essa obra é claramente um clássico que mostra o cenário da Rússia no século XIX e que causou muito espanto na época em que foi publicado, pois a sua história central gira em torno da personagem Anna, que se envolve em um caso extraconjugal, tema que sempre será tabu, independentemente da época retratada.

A trama é dividida em oito partes que acompanham Anna Kariênina e outro personagem central, Liévin — que curiosamente se encontram apenas uma vez durante as 818 páginas de história. Anna é uma mulher deslumbrante, que chama atenção por onde passa, enquanto Liévin é um homem quieto, que gosta do campo e tem um desejo enorme de se casar. Apesar dessa curiosidade que citei anteriormente, os dois personagens estão totalmente ligados por questões familiares, o que, para mim, é um dos pontos principais de Anna Kariênina.

A protagonista Anna surge logo no início do romance para tentar salvar o casamento do seu irmão mais velho, Oblonsky, cuja traição com a preceptora dos filhos foi descoberta pela esposa, Dolly (que obviamente acaba perdoando o marido por questões de comodidade). Anna é casada com o Conde Alexei Karenin, o que não a impede de se apaixonar perdidamente pelo Conde Vronsky, que acaba sentindo o mesmo por ela. Obviamente os dois se envolvem e, com exceção das partes voltadas à Liévin, tudo gira em torno do relacionamento entre Anna e Vronsky.

Assim como várias outras pessoas que tiveram contato com esse livro, a impressão que eu tive é que o que levou Anna a se envolver com outra pessoa foi a necessidade de amar alguém verdadeiramente — apesar de o romance com Vronsky ter começado apenas pela aparência dele. Acredito que para conquistar isso, a personagem acabou tomando decisões extremamente egoístas sem realmente parar para pensar no tamanho da besteira que ela estava fazendo. Eu sinceramente só conseguia sentir ranço da Anna, porque ela simplesmente queria que todos aceitassem como uma coisa normal a traição. E sim, todo mundo sabia o que estava acontecendo.

Eu não acho aceitável as pessoas usarem traição com a desculpa de "preciso ser feliz", mas o caso de Anna é muito pior porque, apesar de o Conde Karenin realmente não amá-la, a gente consegue perceber que há ali uma relação de muito respeito. É claro que raramente os casamentos naquele contexto eram firmados por amor, mas, para mim, nunca vai justificar as atitudes da protagonista. O mais engraçado é que ele tenta abrir os olhos da esposa, mas ela só consegue vê-lo como um monstro que, na minha concepção, ele não é.

Apesar disso, os capítulos com foco em Anna foram muito mais satisfatórios para mim do que os do Liévin, não por ele ser um homem acomodado com a sua vida, mas por várias partes em que ele fala sobre economia, agricultura e várias outras coisas das quais, naquele momento, eu não tinha o menor interesse. Não que fosse uma linguagem difícil ou técnica demais, mas para mim só foram um monte de informações que não fariam falta nenhuma caso fossem retiradas, por exemplo.

O que fez, sinceramente, eu me interessar por esse livro foi o fato de narrar um adultério envolvendo uma mulher, e não um homem. Quer dizer, se você parar para pensar, quando um homem trai, arranjam milhares de justificativas para não enxergarmos aquilo como um erro, mas como um deslize ou algo do tipo. Agora, quando uma mulher é inserida nesse papel, a gente consegue ver claramente como as opiniões mudam. Repito, eu não concordo com as ações da personagem em Anna Kariênina, mas é um fato que nos faz refletir bastante.

Para quem tem interesse em ler Anna Kariênina, mas tem medo da linguagem por ser um livro de Liev Tolstói, não se acanhe: não tem nada de difícil nesse livro. Provavelmente esse foi um dos pontos que mais me agradou fora do contexto da história em si, que é um espetáculo.

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Carta a D. - André Gorz


Sinopse: Uma das declarações de amor mais conhecidas e emocionantes de nosso tempo, este livro é também uma afirmação comovente de companheirismo entre duas pessoas apaixonadas."Você está para fazer 82 anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que 45 quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz 58 anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca." Assim André Gorz inicia sua carta de amor a Dorine, mulher ao lado de quem ele passou a vida e que há alguns anos sofria de uma doença degenerativa incurável.Como um dos principais filósofos do pós-guerra francês, Gorz escreveu inúmeros livros influentes, mas nenhuma de suas obras será tão amplamente lida e lembrada quanto esta carta simples e bela, em que ele rememora tanto a história de companheirismo, amor e militância do casal como a trajetória intelectual que percorreram juntos.Um ano após a publicação de Carta a D., um bilhete encontrado na casa onde moravam fez as vezes de pós-escrito à narrativa: André e Dorine tiraram a própria vida juntos, numa renúncia comovente a viver sozinhos. (Skoob)

Livro recebido como cortesia da Editora.
GORZ, André. Carta a D.: História de um amor. Companhia das Letras, 2018. 112 p.


Embora já tivesse visto um exemplar de Carta a D. História de um amor na edição da Cosac Naify, não tinha muita ideia sobre quem era André Gorz ou sobre o que o livro tratava. Quando recebi em casa uma cortesia da Companhia das Letras, em nova edição, simples, mas extremamente bonita, como uma caixinha externa que dá um toque todo especial, senti minha curiosidade aumentar. 

A leitura é bastante curta, mas carregada de sentimentos. Trata-se de um livro fininho e em tamanho menor que o comum, por isso, embora tenha mais de 100 páginas, provavelmente não teria 50 em um tamanho normal. Isso não significa que seja superficial, porque o relato de André Gorz é extremamente sincero e ele despe sua alma de uma forma como poucos homens têm coragem de fazer.

"O capítulo deveria marcar a principal reviravolta da minha vida. Deveria mostrar como o meu amor por você - ou melhor, a descoberta do meu amor por você - por fim me levaria a querer existir; deveria mostrar como a minha relação amorosa com você iria se tornar a razão de uma conversão existencial."

Gorz foi um filósofo austríaco, radicado na França, que se tornou conhecido por suas reflexões sobre sociedade e existencialismo. Embora seu trabalho e seu pensamento político estejam nítidos em Carta a D., eles estão longe de ser o ponto principal da obra. O livro é dedicado a Dorine, esposa do autor, e ele tenta refletir nessas poucas páginas o quanto sua mulher foi importante para ele, não só em relação ao que ele sentia, mas no quanto ele dependeu dela para ser o que era.

O autor conseguiu mostrar, ao narrar a vida dos dois desde que se conheceram, o quanto sua perspectiva de vida foi influenciada por Dorine, a única mulher que amou. É claro que nem tudo era perfeito, afinal se trata de uma história e de um depoimento real, mas foi no comum que esse amor foi construído. Um relacionamento que durou quase 60 anos sem dúvidas foi construído com muita parceria, amizade e amor.

"A base sobre a qual a nossa relação se erguia mudou no curso desses anos; nosso relacionamento se tornou o filtro pelo qual passava minha relação com o real."

Gorz consegue mostrar também que, embora o nome em cada trabalho fosse o dele, na verdade tudo o que fazia era vinculado a Dorine. Era ela quem lhe dava suporte, quem lhe trazia reflexões e lhe fazia ver por outras perspectivas. Tanto que, sem a esposa, ele não viu mais sentido em viver. Dorine e Andre abdicaram da vida juntos, em 2007, um ano depois da publicação desse livro.

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Por isso a gente acabou - Daniel Handler

Sinopse: Por isso a gente acabou trata, com a comicidade típica do autor, de uma situação difícil pela qual todos um dia irão passar: o fim de uma relação amorosa e toda a angústia, tristeza e incerteza que essa vivência pode gerar. Min Green e Ed Slarteron estudam na mesma escola e, depois de apenas algumas semanas de convívio intenso e apaixonado, acabam o namoro. Depois de sofrer muito, Min resolve, como marco da ruptura definitiva, entregar ao garoto uma caixa repleta de objetos significativos para o casal junto com uma carta falando sobre cada um desses objetos e do episódio que ele representou, sempre acrescentando, ao final, uma nova razão para o rompimento. Essa carta é o texto de Por isso a gente acabou, que é, assim, carregado de um tom informal e tragicômico - características da personagem - e traduz com um misto de simplicidade e profundidade a história de uma separação. Imerso neste universo adolescente, o leitor conhecerá a divertida personalidade de Min, uma garota apaixonada por filmes cujo sonho é ser diretora de cinema, e as idas e vindas deste romance, desde o dia em que os dois conversaram pela primeira vez até o instante em que tudo acabou. (Skoob)
HANDLER, Daniel. Por isso a gente acabou. Cia das Letras, 2012. 368 p.


Eu adoro os livros de Lemony... ops, Daniel Handler (nome verdadeiro do autor de Desventuras em Série), porque nada nunca é o que é. Você pode pensar que é assim agora e depois descobrir que estava errada, que  o personagem estava errado, que o autor mentiu para você ou simplesmente que a situação mudou.

Na vida mesmo, num momento, você vê algo como belo, inebriado por tudo, pela sensação do que está acontecendo, e depois você percebe... o quão feio era, o quanto queria que não tivesse acontecido, o quanto deseja que pudesse ter agido diferente.

"A gente achou que tinha tempo. Eu acenei, mas não podia responder, porque finalmente tinha me permitido sorrir tanto quanto eu queria a tarde inteira, a noite inteira, cada segundo de cada minuto com você, Ed. Que merda, acho que eu já te amava. Condenada, como um taça de vinho sabendo que um dia vai cair, sapatos que logo vão ficar gastos, a blusa nova que logo você vai sujar."

Durante várias situações, durante o apaixonado e intenso e breve namoro de cinco semanas com Ed, Min deseja em retrospectiva ter agido diferente, ter se comportado diferente, não ter sido tão complacente. Até que chega o momento que as coisas ruins superam as boas, que ela não pode mais levar aquilo adiante, que o relacionamento deles precisa acabar.

Você já começa a leitura sabendo que Min e Ed terminaram (não é spoiler), o livro é justamente as razões que levou Min a dizer "...e foi por isso que a gente acabou" ao longo dos capítulos.

Foram por muitas coisas, Ed, que vocês acabaram.
Foi uma bola de neve que só aumentava de tamanho.
Foram dias ruins superando as noites boas.
Foi mais tristeza do que alegria.
Escrevendo uma carta/livro para Ed, Min narra essa história.

"[...] é por isso que já estava condenado, bem ali. A gente não podia ter só as noites de magia zumbindo pelos fios. A gente tinha que ter os dias, também, os belos e impacientes dias que estragavam tudo com os cronogramas inevitáveis, os horários obrigatórios que não se cruzavam, os amigos leais que não se gostavam, os absurdos imperdoáveis rasgados da parede independentemente das promessas feitas depois da meia-noite, e foi por isso que a gente acabou."

A escrita é simplesmente... única. Não conheço nenhum autor que consegue fazer o que Daniel Handler faz, porque é uma enrolação intencional que te deixa pirando na batatinha, completamente perdida (um pouco ao menos) na história. Quem não gosta, não gosta realmente dessa narração um pouco arrastada e dessas voltas e meia-voltas, não vai conseguir terminar esse livro.

Daniel narra de um jeito meio mórbido, meio morrendo, lentamente, arrastando-se pelo chão com as últimas forças; não é mórbido-gótico, como em Desventuras em Série - é um pouco parecido, mas o ator desse livro é Daniel Handler e não Lemony Snicket, então, não, não é o mesmo. E, claro, você tem todas as suas respostas do "por isso a gente acabou" diferente de DES, que você não tem resposta nenhuma.

"Não durou muito, não ficou aberto por muito tempo, e foi por isso que a gente acabou, mas quando fecho este livro para te entregar, não penso nisso, na gente segurando o livro nas mãos para comprar e levar, porque, porra, Ed, não foi por isso que a gente terminou. Eu amo, sinto falta, odeio ter que te devolver, essa coisa complicada, foi por isso que a gente ficou junto."

Quantas histórias narram um término de namoro? Quantos autores conseguem escrever um namoro que nem tudo são flores e rosas? (Nunca entendi essa frase.)  E não apenas o namoro, todos relacionamentos da protagonista foram tratados muito bem, com seus altos e baixos e meios que te faz refletir e pensar no quanto é real, em como nos comportamos realmente assim.

Fora a narração complicada do autor, que com certeza não vai cativar a todos, que invariavelmente em alguns momentos você vai se perguntar quando vai terminar (eu me perguntei com um pouco de culpa na consciência), é uma boa história. 

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Nossas Noites - Kent Haruf

Sinopse: Em Holt, no Colorado, Addie Moore faz uma visita inesperada a seu vizinho, Louis Waters. Viúvos e septuagenários, os dois lidam diariamente com noites solitárias em suas grandes casas vazias. Addie propõe a Louis que ele passe a fazer companhia a ela ao cair da tarde para ter alguém com quem conversar antes de dormir. Embora surpreso com a iniciativa, Louis aceita o convite. Os vizinhos, no entanto, estranham a movimentação da rua, e não demoram a surgir boatos maldosos pela cidade. Aos poucos, os dois percebem que manter essa relação peculiar talvez não seja tão simples quanto parecia. Neste aclamado romance, Kent Haruf retrata com ternura e delicadeza o envelhecimento, as segundas chances e a emoção de redescobrir os pequenos prazeres da vida que pode surpreender e ganhar um novo sentido mesmo quando parece ser tarde demais. (Skoob)
HARUF, Kent. Nossas Noites. Companhia das Letras, 2017. 160 p.


Com uma capa singela, mas que muito representa sua trama, Nossas Noites, de Kent Haruf, logo me chamou a atenção, mas por um motivo não tão nobre: suas poucas páginas. Pensei que, se o enredo não conseguisse me envolver, ainda conseguiria fazer uma leitura rápida, então por que não arriscar? Felizmente, eu estava muitíssimo enganada ao pensar assim e percebi isso logo que o livro chegou às minhas mãos, visto que havia uma carta da editora dentro dele com ótimas recomendações. Quando cheguei ao fim da leitura, lamentei essas mesmas poucas páginas.

Nossas Noites conta a história de Addie e Louis, dois vizinhos septuagenários que já cumpriram todas as "formalidades" da vida e, agora, parecem não ter uma função bem definida na sociedade. Tudo muda quando Addie bate à porta de Louis com uma proposta inusitada: que ele passe as noites na casa dela para terem um ao outro como companhia, sem outras intenções além de ter alguém ali do lado.

"Não, sexo não. Não é essa a minha ideia. Acho que perdi todo e qualquer impulso sexual já faz muito tempo. Estou falando de ter uma companhia para atravessar a noite, para esquentar a cama. De nós nos deitarmos na cama juntos e você ficar para passar a noite. As noites são a pior parte. Você não acha?"

A leitura do livro se torna interessante desde sua construção textual. Sem aspas ou travessões que demarquem os diálogos, o texto exige do leitor maior atenção a cada parágrafo, para que se possa acompanhar a história em sua plenitude. Isso não atrapalha em nada e ainda nos obriga a reparar em detalhes da escrita que, com a devida marcação, talvez passassem despercebidos.

Para além da forma, o livro conquista muito mais por seu conteúdo. Um romance entre "velhinhos" pode parecer desinteressante num primeiro momento para quem vive em plena juventude, mas acho que li poucas histórias de amor tão tocantes quanto essa. Acompanhar Addie e Louis é transbordar emoção e, por isso, Nossas Noites se torna um daqueles livros que acalenta o coração.

É inspirador ver um romance nascer sem aquela urgência da juventude e se solidificar nos pequenos detalhes do dia a dia. Não há aqui aquela incerteza incômoda de um futuro, já que o futuro não importa mais, apenas um dia após o outro. É lindo acompanhar os dois se redescobrirem um no outro, deixarem a comodidade de lado para viverem coisas novas, se tornarem pessoas melhores quando ninguém espera mais algo diferente nessa fase da vida. Fiquei fascinada pela forma como a obra de Kent Haruf mostra o amor como ele sempre deveria ser: sem pressa, sem posses, sem interesses; somente o prazer de ter aquela pessoa ao seu lado.

"Quem imaginaria que, a essa altura da vida, nós ainda poderíamos ter algo desse tipo? Que afinal ainda existe, sim, espaço para mudanças e entusiamos na nossa vida. E que nós ainda não estamos acabados nem física nem espiritualmente."

Além disso, são mais do que válidas as reflexões que o texto traz, sobre idade e solidão, sobre ideias pré concebidas de que idosos não têm mais vida e nem podem ter e em quanto sofrimento isso resulta. No livro, essas características se personificam em todos os habitantes da cidade e, principalmente, na figura de Gene, filho de Addie, que acha que a mãe "não tem mais idade para isso" e faz de tudo para que Louis se afaste dela.

Nossas Noites me conquistou por sua simplicidade, por tratar do amor em sua forma mais límpida, por mostrar como é importante viver sem se preocupar com outros e que há muito mais maldade no julgamento do que no fato em si.

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Jantar Secreto - Raphael Montes

Sinopse: Um grupo de jovens deixa uma pequena cidade no Paraná para viver no Rio de Janeiro. Eles alugam um apartamento em Copacabana e fazem o possível para pagar a faculdade e manter vivos seus sonhos de sucesso na capital fluminense. Mas o dinheiro está curto e o aluguel está vencido. Para sair do buraco e manter o apartamento, os amigos adotam uma estratégia heterodoxa: arrecadar fundos por meio de jantares secretos, divulgados pela internet para uma clientela exclusiva da elite carioca. No cardápio: carne humana. A partir daí, eles se envolvem numa espiral de crimes, descobrem uma rede de contrabando de corpos, matadouros clandestinos, grã-finos excêntricos e levam ao limite uma índole perversa que jamais imaginaram existir em cada um deles. (Skoob)
MONTES, Raphael. Jantar Secreto. Cia das Letras, 2016. 360 p.


Há duas formas de encarar Jantar Secreto: a primeira, e mais óbvia, seria um misto de drama e horror, onde um grupo de jovens, vindos do interior do Paraná, fracassam na tentativa de construir uma vida profissional de sucesso no Rio de Janeiro, e encontram a solução de seus problemas na organização de jantares milionários, onde servem carne humana. Por esse pequeno enredo, fica evidente o quanto a narrativa pode ser pesada e degradante. Entretanto, seguindo por esse caminho, o livro fracassa miseravelmente.


A segunda forma de encarar Jantar Secreto, é classificar a história de humor negro, onde o absurdo das situações faz rir. Por esse outro caminho, o livro agrada e atinge o objetivo de entreter, o que, talvez, não tenha sido o proposto originalmente pelo autor.

Quando se escreve uma história, o autor precisa tomar cuidado com diversas coisas. Entre elas, transformar o que conta em algo verossímil, algo que o leitor compra e acredita, mesmo que os personagens sejam anjos, vampiros, monstros, ou, neste caso, jovens que propagam o canibalismo como forma de ganhar dinheiro.

Ao iniciar a leitura de Jantar Secreto, o leitor começa acreditando que algo irá acontecer, mas já nas primeiras páginas, quando o motivo do canibalismo é apresentado, começa uma trajetória de absurdos, que vão crescendo em quantidade e intensidade, que não convencem, não só pelos furos do roteiro, como pelas motivações.

Nesse ponto, a obra não desaba apenas por um motivo: o humor empregado acidentalmente nos pensamentos e ações de todos os personagens. Digo acidentalmente, porque, pelo minha ótica, o autor não teve essa intensão, uma vez que, por diversas vezes, ele coloca Dante, o personagem principal e narrador, a dizer que o que está contando é sério, que o que eles estão fazendo, poderia ser feito por qualquer um de nós nas mesmas situações, que as coisas que eles perpetuam é horrendo e que não é passível de perdão. O que penso é que, ao escrever, o autor percebeu o quanto as situações criadas eram desprovidas de causa, que era necessário implorar para o leitor acreditar que elas poderiam, realmente, acontecer.


Sinto muito, mas não. Ninguém em perfeita saúde mental, ou mesmo nem tanta, apenas por uma dívida de aluguel, que pode ser paga com o dinheiro da mãe de um deles, torna-se assassino e comedor de pessoas. Inclusive, o autor, ainda pela voz de Dante, afirma que as pessoas loucas são menos perigosas que as normais, uma vez que são estas últimas quem, normalmente, perpetuam as maldades. Novamente, sinto discordar. A partir do momento que uma pessoa executa um ato de maldade sem causa, ela tem uma psicopatia e, portanto, não é normal.

Então, o que nos resta, é acompanhar o desenrolar dos acontecimentos e rir dos absurdos que vão sendo apresentados, como a prostituta que se mostra extremamente competente em decepar membros humanos, suando uma motosserra amarela com adesivos, o cozinheiro que usa esses membros como se fossem iguarias, o administrador que recebe os convidados com um sorriso no rosto, mesmo sabendo que as pessoas estão sendo assassinadas, e o especialista em informática, que consegue invadir quase qualquer computador, menos uma conta do Instagram, quando uma foto do jantar vaza.


Encarando dessa forma, como uma comédia recheada com partes humanas e regada com sangue, a leitura é prazerosa e divertida, principalmente pelo total declínio de caráter dos personagens principais: Dante é gay, passa todo o livro lamentando sua vida desgraçada, sua incapacidade de impedir os jantares e o desmoronamento da amizade com seus amigos, além de criar um romance, justamente, com o marido de uma das pessoas que foram servidas no jantar; Hugo almeja ser um cozinheiro famoso, criador de iguarias difíceis de reproduzir, o que, de certa forma consegue; Miguel torna-se médico e, da mesma forma que Dante, passa todo o livro chorando e dizendo que não quer participar daquele negócio horrendo, mas sempre acaba se envolvendo; Leitão é o hacker, cujo conhecimento de informática é tão extenso quando a necessidade do enredo, isto é, ele vai de um burro total a um gênio nos computadores; e, finalmente, a personagem mais interessante e engraçada, que é Cora, a prostitua que Dante, Miguel e Hugo contratam como presente de aniversário de Leitão, e que se torna peça fundamental de todo o enredo.

Inclusive, Cora é a protagonista de algumas tiradas que o autor dispara a diversos segmentos. Ela escreve poesias e frases de efeito, porque seu sonho é escrever e publicar um livro. Essas frases são mencionadas por Dante em toda a narrativa, e sempre estão associadas a algo que aconteceu, ou que está prestes a acontecer. Em determinado momento, lá para o meio do livro, Dante precisa encontrar uma forma de lavar o dinheiro que os cinco ganham. A forma que ele encontra, é publicando os textos de Cora, como se fosse uma editora. E após isso, Cora se sente realizada, dizendo ser uma autora publicada.

Realmente, hoje em dia, para ser um autor de livro publicado, só é necessário dinheiro. Existem diversas editoras que funcionam como gráficas, que não se preocupam com o conteúdo ou qualidade da obra, que não fazem revisões ou expõem opiniões, e publicam qualquer coisa que qualquer um pague. Entretanto, um autor publicado por uma editora tradicional, que não cobra pelo serviço, também não oferece garantias de qualidade, uma vez que se qualquer um observar, existe muita coisa ruim publicada por editoras ditas como grandes. E se o autor não paga para isso, existe algo que se chama lobby, ou seja, peixinho, quem indica, apadrinhamento. E isso, a meu ver, é bem pior que do que o autor que tem dinheiro para pagar pela publicação de sua obra.


Continuando o desmembramento de Jantar Secreto, o que começa com a ideia de apenas um jantar, servindo partes de um defunto ao preço de cinco mil reais por pessoa, torna-se um aglomerado industrial, com abatedouros espalhados por diversas capitais do país, envolvimento de inúmeros policiais de rodovias estaduais, como também detetives, garçons, açougueiros, motoristas, assassinos, sequestradores, e um crescente de outros absurdos, que seriam facilmente descobertos e desmascarados, pela extensão que atingiram, até que chegamos a um clímax onde se confunde o certo com o errado, onde não se aplica nenhuma moral, onde jorra sangue para todos os lados e onde é revelada uma explicação para tudo isso, que, enfim, é divertida e faz rir pelo teor nonsense.

Entretanto, tem uma coisa que Jantar Secreto faz muito corretamente, que é o paralelo entre a produção industrial de carne humana e carne animal. Por diversas vezes, o autor realiza essa comparação, alertando para que, hoje em dia, os matadouros são máquinas de produzir animais para abate, deixando de lado qualquer pingo de compaixão. Que a mesma carnificina realizada nas pessoas, que ele descreve no livro, existe igual para bois, galinhas, porcos, etc. Tudo bem que precisamos delimitar as duas comparações, contudo não podemos esquecer que em ambas, estamos tratando de seres vivos.


Resumindo: encare Jantar Secreto como uma história gore, divertida, onde não é necessáiro se preocupar com a lógica do enredo, nem com a motivação de cada personagem, simplesmente aproveite a leitura, ria dos absurdos e, ao fim, procure algo mais sério e com alguma moral para contrabalançar.

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Galveias - José Luiz Peixoto

Sinopse: Pequena aldeia no Alentejo, interior de Portugal, Galveias é onde nasceu José Luís Peixoto. A partir de suas memórias de infância, o autor constrói neste romance o universo de um lugarejo quase parado no tempo, que subitamente se vê diante de um imenso mistério. Com grandes histórias e um elenco de personagens admiráveis, ele traça um retrato da vida rural portuguesa no início dos anos 1980, que vivia então um embate entre a tradição e a inevitável chegada da modernidade, em um momento economicamente difícil para o país. Um livro essencial para compreender a identidade lusitana no mundo contemporâneo. (Skoob)
PEIXOTO, José Luis Galveias. Editora Cia das Letras, 2015. 272 p.


Antes de começar a escrever sobre Galveias, preciso dizer que morei em Lisboa, Portugal, durante quase cinco anos, período em que fiz faculdade. Meu estágio era em uma empresa de informática e, por causa disso, viajava para várias cidades do interior para prestar serviços em clientes.


Fazendo um comparativo entre as pequenas cidades portuguesas e brasileiras, é possível encontrar vários pontos em comum. Entretanto, em uma coisa, as vilas portuguesas ganham da gente disparado: no conservadorismo. A vida em muitas dessas localidades simplesmente parou no tempo. Vivem à base de uma agricultura limitadíssima, que também serve de subsistência, de turistas e passam os dias entre rodas de conversas, vinhos, queijos e fugindo de qualquer coisa que seja nova. As notícias do mundo, recebem com tanta incredulidade quanto desinteresse. É como ouvir a história de um livro de ficção, para esquecer em seguida.

É nesse ambiente parado no tempo que se passa a história, ou histórias, de Galveias, uma pequena vila do interior de Portugal. A partir da queda de um objeto do céu, que nunca é totalmente explicado, nos arredores da vila, acompanhamos, em cada um dos capítulos, o passado e presente de alguns dos moradores.

As histórias desses indivíduos, que podem ser ficcionais ou não, uma vez que o autor nasceu em Galveia e disse que o livro é baseado em suas memórias, são variadas e, na sua maioria, interessantes. Passamos por rixas entre irmãos; ataques a uma professora, que tenta ser aceita pelos habitantes; uma prostituta brasileira que vende pães; um rapaz com problemas mentais que é acusado de coisas que cometeu, e não cometeu; um comerciante que esconde sua esposa negra com medo do racismo, entre outros vários casos. Cada um deles com pontos em comum, ou quase em comum, que são suficientes para torná-los uma leitura concisa.


A narrativa de Peixoto é poética. O tratamento que ele emprega em cada frase, em cada parágrafo, é uma arte minuciosa. Ela não chega a ser demasiado descritiva, mas vai ao detalhe que emprega sentimento, que torna uma ação ordinária em algo sútil, belo, ou terrivelmente cruel. O leitor acaba sendo arrebatado pela forma como a história é contada e não, necessariamente, pelo que acontece nela. Sendo assim, Galveias não é uma obra para ser lida por qualquer pessoa. Ela necessita de atenção, de uma dedicação que vai além do entendimento dos acontecimentos, para ir ao entendimento da palavra.

Em termos de história propriamente dita, com exceção para a história da rixa de dois irmãos, não há muitas surpresas. São casos que não chegam a emocionar. Talvez, mais, pelo fato de que não existe foco em nenhum personagem. Assim, o leitor não consegue se afeiçoar a ninguém, e apenas acompanha cada capítulo com o interesse de descobrir o que eles levam em comum, e como se ligam com a queda do objeto do céu.

Galveias também é uma obra recheada de metáforas. Praticamente tudo nela tem duplo sentido. Desde os animais domésticos, como os cachorros, até o cheiro de enxofre que invade a vila após a queda do “sem nome”. Inclusive, a própria passagem do tempo é metafórica, uma vez que, em certos pontos, o leitor não tem certeza se está lendo algo do passado ou do presente.

Por fim, a obra foi a ganhadora do prêmio Oceanos, um dos mais importantes prêmios da literatura de língua portuguesa, ou seja, do Brasil e Portugal. Estavam inscritos mais de 700 livros, dentre os quais eu li vários. Meu interesse principal em ler o livro de Peixoto, residia em tentar entender a escolha dos jurados, e fazer um comparativo com os outros concorrentes que eu conhecia. Depois, eu ainda li algumas resenhas lusitanas, uma vez que no Brasil não encontrei nenhuma, bem como algumas reportagens.


Não serei arrogante a ponto de emitir uma opinião sobre merecimento. Entretanto, a sensação que a escolha me passou, foi a mesma de um livro com uma história absolutamente normal, sem qualquer coisa de espetacular, que é escrita com pompa, lida com exacerbação, em um ambiente requintado, para pessoas que dão mais valor à forma e estilo, do que ao conteúdo. Eu, particularmente, prefiro aqueles ambientes triviais, onde nos sentamos no chão, rodeados de amigos, e ouvimos a leitura de uma história descrita com palavras usuais, mas cuja aventura nos deixa sem fôlego.

Eu dou mais importância ao conteúdo da história, do que à forma como ela é narrada. Mas isso é uma questão de gosto, de perspectiva. E cada um tem o seu.

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Dias Perfeitos - Raphael Montes

SINOPSE: Téo é um solitário estudante de medicina que divide seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e examinar cadáveres nas aulas de anatomia. Durante uma festa, ele conhece Clarice, uma jovem de espírito livre que sonha tornar-se roteirista de cinema. Ela está escrevendo um road movie sobre três amigas que viajam em busca de novas experiências. Obcecado por Clarice, Téo quer dissecar a rebeldia daquela menina. Começa, então, uma aproximação doentia que o leva a tomar uma atitude extrema. Passando por cenários oníricos, que incluem um chalé em Teresópolis e uma praia deserta em Ilha Grande, o casal estabelece uma rotina insólita, repleta de tortura psicológica e sordidez. O efeito é perturbador. Téo fala com calma, planeja os atos com frieza e justifica suas atitudes com uma lógica impecável. A capacidade do autor de explorar uma psique doentia é impressionante – e o mergulho psicológico não impede que o livro siga um ritmo eletrizante, repleto de surpresas, digno dos melhores thrillers da atualidade. Dias perfeitos é uma história de amor, sequestro e obsessão. Capaz de manter os personagens em tensão permanente e pródigo em diálogos afiados, Raphael Montes reafirma sua vocação para o suspense e se consolida como um grande talento da nova literatura nacional.
MONTES, Raphael. Dias Perfeitos. Editora Companhia das Letras, 2014. 280 p.

Esse foi um livro que me deixou presa em suas páginas do começo ao fim. Raphael Montes conseguiu criar uma história tensa e cheia de acontecimentos marcantes.


Téo é um estudante de medicina, calado e solitário. A única pessoa por quem ele tem algum afeto é sua amiga Gertrudes. Não bastasse a estranheza desse fato, Gertrudes é um cadáver de suas aulas de anatomia. Ele não sente amor nem afeto por ninguém, nem pela própria mãe ou por seu cachorro.

"Sentia-se um monstro. Não gostava de ninguém, não nutria nenhum afeto para sentir saudades: simplesmente vivia. Pessoas apareciam e ele era obrigado a conviver com elas. Pior: era obrigado a gostar delas, mostrar afeto. Não importava sua indiferença desde que a encenação parecesse legítima, o que tornava tudo mais fácil."

Tudo começa quando a mãe convida Téo para um churrasco. Ele não tem interesse em ir, pelo fato de ser muito introvertido e, além do mais, é vegetariano. Mas acaba acompanhando a mãe, pois ela é cadeirante e depende dele para muitas coisas.


Nesse churrasco, Téo conhece uma moça chamada Clarice. Ela é divertida e confiante, muito bonita, também. Sonha em ser uma roteirista de cinema, e está escrevendo "Dias Perfeitos", um filme que conta a história de quatro amigas que saem em busca de aventuras por alguns lugares do Brasil. Ela o beija, e talvez tenha sido nesse momento que ele se apaixona.

"Ela o havia beijado naquele churrasco. Por que parar? Do beijo, furtado e furtivo, ele havia se tornado refém. Não era o invasor, mas o invadido; não queria só desvendar, mas ser desvendado. Ele amava Clarice, admitiu. Precisava ser amado."

Téo se interessa por Clarice de uma forma obsessiva. Ele quer aquela mulher de qualquer forma. Quer provar que  eles formariam um belo casal. O rapaz começa a perseguir Clarice e até descobre onde ela mora. Então, decide ir até a sua casa para lhe entregar um presente, mas, chegando lá, eles discutem, pois Clarice não tem interesse nele, e Téo acaba acertando a cabeça dela, fazendo-a desmaiar. É aí que ele tem a brilhante ideia de sequestrá-la. Coloca Clarice dentro de uma mala e decide partir para os lugares onde as personagens do filme iriam viajar. Quem sabe assim ela se apaixona por ele?


A mãe de Téo é muito importante na trama, pois ela é uma das únicas pessoas que convivem com Téo, mesmo que ele a considere um peso morto. A mãe de Clarice também é uma personagem importante no livro. Mesmo não tendo um bom relacionamento com a filha, se preocupa com ela, pois Téo não permite que as duas conversem por telefone durante a "viagem".

A cada página virada, eu sentia mais raiva de Téo. A todo momento acontecia alguma coisa chocante. Mesmo o livro sendo narrado em terceira pessoa, conseguimos perceber que ele está achando tudo aquilo normal, acha que existe alguma chance de fazer Clarice se apaixonar. Achei estranho o fato dele dizer que a ama, que precisa de Clarice para viver, conhecendo-a a pouco menos de um mês. Mas acho que a intenção do autor foi mostrar o quão desorientado o personagem é.

A cada novo acontecimento, eu ficava mais chocada com as atitudes de Téo. Ele não tem escrúpulos e imagina coisas malucas. Ao imaginar essas coisas, ele tem mais ideias terríveis, e seus atos viram uma bola de neve cada vez maior. Ele é totalmente frio e calculista. O autor soube criar um personagem muito desequilibrado psicologicamente, sem tornar o livro monótono, muito pelo contrário.


A narrativa é ótima, cheia de ação e diálogos. Só elogios para esse livro!

O autor conseguiu criar ótimos personagens e um enredo incrível. Porém, o final não me agradou tanto. Eu não esperava pelo que aconteceu. Acho que o autor poderia ter sido um pouco mais malvado. Mas ainda assim, foi um bom livro. Espero ter a oportunidade de ler as outras obras do autor em breve.

Enfim, recomendo a leitura!

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Coração de Tinta - Cornelia Funke


Há muito tempo Mo decidiu nunca mais ler um livro em voz alta. Sua filha Meggie é uma devoradora de histórias, mas apesar da insistência não consegue fazer com que o pai leia para ela na cama. Meggie jamais entendeu o motivo dessa recusa, até que um excêntrico visitante noturno finalmente vem revelar o segredo que explica a proibição. É que Mo tem uma habilidade estranha e incontrolável: quando lê um texto em voz alta, as palavras tomam vida em sua boca, e coisas e seres da história surgem como que por mágica. Numa noite fatídica, quando Meggie ainda era um bebê, a língua encantada de Mo trouxe à vida alguns personagens de um livro chamado "Coração De Tinta". Um deles é Capricórnio, vilão cruel e sem misericórdia, que não fez questão de voltar para dentro da história de onde tinha vindo e preferiu instalar-se numa aldeia abandonada. Desse lugar funesto, comanda uma gangue de brutamontes que espalham o terror pela região, praticando roubos e assassinatos. Capricórnio quer usar os poderes de Mo para trazer de "Coração De Tinta" um ser ainda mais terrível e sanguinário que ele próprio. Quando seus capangas finalmente seqüestram Mo, Meggie terá de enfrentar essas criaturas bizarras e sofridas, vindas de um mundo completamente diferente do seu.

FUNKE, Cornelia. Coração de Tinta. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2014. 456 p.

Quando eu assisti Coração de Tinta há um tempo atrás, eu não fazia ideia de que ele era uma adaptação deste livro maravilhoso. Quando fiquei sabendo da existência da obra, quis logo ler, já que gostei muito o filme (os fãs do livro que me perdoem, pelo o que eu sei, o filme não é tão amado assim...). É claro que aconteceu como a maioria das vezes: se o filme é bom, o livro é mil vezes melhor. 

Meggie é uma garota de 12 anos que tem uma baita sorte: foi criada junto de um monte de livros (o sonho de todos nós, não é mesmo?). Seu pai, Mo, que é restaurador, reforma livros tão bem que é considerado uma espécie de médico: ele consegue recuperar até aquele livro de mil anos, todo mofado e com a capa mais desleixada do mundo. Por tê-los por perto o tempo inteiro, Meggie acabou se tornando uma ávida leitora. 

Em uma noite chuvosa, Meggie não consegue dormir. A única coisa em que consegue pensar, naquela noite, é o porquê de seu pai nunca ter lido nenhuma história em voz alta para ela. Por mais que ela peça, Mo é irredutível. Eis que em algum momento, Meggie percebe um vulto lá fora e corre para chamar o pai. O mais estranho é que Mo parece ser amigo de longa data do homem repleto de cicatrizes que veio falar com ele. E pior ainda: o homem atende pelo nome de Dedo Empoeirado e trata Mo por Língua Encantada. 

O que Maggie não sabe é que Dedo Empoeirado é personagem de um livro chamado Coração de Tinta e que o motivo de Mo não realizar um dos seus maiores desejos é totalmente ligado a esse fato: o simples restaurador de livros tem o poder de trazer para o mundo real os personagens de qualquer história toda vez que lê em voz alta. Isso pode parecer um dom mágico para muitos, mas não para Mo. Há muito tempo, enquanto lia para Meggie quando ela ainda era muito nova, Mo trouxe para o nosso mundo um terrível vilão, Capricórnio. Como se isso já não fosse ruim o bastante, para que algum personagem fosse transportado, alguém desse lado ia parar dentro do livro. E adivinhem quem fez essa terrível troca com Capricórnio? Isso mesmo, a mãe de Meggie. Desde então, Mo tenta de toda forma trazer sua mulher de volta e acaba sendo perseguido pelo vilão que retirou do livro. 

"Quando você leva um livro numa viagem", dissera Mo quando ela pôs 
o primeiro no baú, "acontece uma coisa estranha: o 
livro começa a colecionar lembranças. Depois 
basta abri-lo, e você já está de novo no lugar onde o leu. 
Tudo volta, já nas primeiras palvras: as imagens, os cheiros, o sorvete
 que você tomou enquanto lia... Acredite, os livros são 
como papel pega-moscas. Não existe nada melhor
 para grudar lembranças do que páginas impressas." 

Tenho uma opinião que ninguém consegue tirar de mim: não há nada mais incrível do que livros que falam sobre livros, principalmente sobre pessoas que gostam muito de ler. É muito delicioso saber que essas coisas não acontecem só nos livros, já que nós também somos apaixonados por literatura. Só por isso posso dizer que Coração de Tinta é uma leitura obrigatória para os amantes dos livros, pois além de possuir uma história maravilhosa, tem várias referências literárias tão maravilhosas quanto. 

Por ser um infanto-juvenil, tem a linguagem tão suave que é muito fácil ler por horas e nem perceber que o tempo passou rápido. Apesar de ser desse gênero, Coração de Tinta é um livro que indico para pessoas de qualquer idade: não importa se você tem 10 ou 100 anos, o mundo criado por Cornelia Funke vai te cativar de uma forma tão simples que é até difícil acreditar que toda a magia do livro não é real. 

A diagramação do livro também é um ponto positivo. Além de trazer trechos de vários clássicos no início de cada capítulo, possui ilustrações de encher os olhos. Com personagens e um enredo super bem construídos, Funke conseguiu criar uma história que prende desde o início e, no fim, deixa aquele gostinho de quero mais.


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Não Me Abandone Jamais - Kazuo Ishiguro


Kathy H. tem 31 anos e está prestes a encerrar sua carreira de "cuidadora". Enquanto isso, ela relembra o tempo que passou em Hailsham, um internato inglês que dá grande ênfase às atividades artísticas e conta, entre várias outras amenidades, com bosques, um lago povoado de marrecos, uma horta e gramados impecavelmente aparados. Embora à primeira vista pareça pertencer ao terreno da ficção científica, o livro de Ishiguro lança mão desses "doadores", em tudo e por tudo idênticos a nós, para falar da existência. Pela voz ingênua e contida de Kathy, somos conduzidos até o terreno pantanoso da solidão e da desilusão onde, vez por outra, nos sentimos prestes a atolar.

ISHIGURO, Kazuo. Não me Abandone Jamais. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. 344 p.  

Pensei muitas vezes em como começar essa resenha e não consegui. Desculpem-me por introduzi-la assim, mas não encontrei outra forma de expressar o quanto esse livro foi difícil. Não digo isso porque foi uma leitura ruim, e sim porque foi pesada. Já fazia um bom tempo que eu tinha uma vontade imensa de lê-lo, e não me arrependi.

Logo no início do livro, conhecemos Kathy H, 31 anos, "cuidadora" há quase doze. É um tempo relativamente longo, mas é uma tarefa que ela mesma e muitos outros acreditam que ela desempenha muito bem. Prestes a ser tornar uma "doadora", Kathy nos conta de uma forma atemporal e bastante nostálgica sobre sua infância e adolescência em Hailsham, uma espécie de internato que se localiza no interior da Inglaterra. 

Ao longo da narrativa, Kathy nos apresenta seus amigos Tommy e Ruth. Para falar a verdade, não sabemos muitas coisas sobre Hailsham, sobre os guardiões (que são como os nossos professores) e sobre as crianças que lá residem. Porém, desde o início a protagonista deixa claro que os alunos de Hailsham eram diferentes, especiais, se só vamos saber o porquê dessa denominação um pouco mais para frente.

É complicado falar desse livro porque qualquer informação que eu possa dar sobre ele pode, de certo modo, prejudicar a leitura. Inclusive, a própria descrição da obra no Skoob e site da Companhia das Letras revela demais sobre ele. É uma estória para ser degustada, para descobrir aos poucos todos os mistérios que rondam as crianças de Hailsham.

"É um momento gélido, esse, o da primeira vez em
 que você se vê através dos olhos de uma pessoa assim. 
É como passar diante de um espelho pelo qual passamos
 todos os dias de nossas vidas e perceber que ele reflete 
outra coisa, uma coisa estranha e perturbadora."

O livro me trouxe muitos questionamentos, coisas que antes nunca haviam passado pela minha cabeça. O que nos torna essencialmente humanos? O que é o amor de verdade? Há forma de recuperar o tempo perdido? E se houvesse, será que eu o faria? O tempo que nós temos é suficiente para fazer todas as coisas que desejamos e, principalmente, para amar as pessoas? Aliás, o que é mesmo o tempo?

Há também um filme homônimo, que foi dirigido por Mark Romanek e tem um elenco muito bom. Apesar de eu ainda não ter assistido, só pelo trailer dá para perceber que muitos fatos que descobrimos só após algum tempo no livro, são deixados claros desde o início na adaptação. Por isso, aconselho que, se você tiver o interesse de ler a obra, não assista ao trailer. Aliás, não procure saber muitas coisas a mais porque sim, pode tirar o brilho da história. 

Não Me Abandone Jamais é um livro naturalmente triste. Acho que já comentei sobre isso aqui algumas vezes, mas apesar de não ter muitos planos para o futuro, tenho muito medo de ficar sozinha, no fim. Apesar de o livro não retratar exatamente isso, terminei-o com esse sentimento de solidão. Foi bem angustiante ir descobrindo as coisas por trás da vida dos protagonistas. Assustador, até. Mas esse fato não é para intimidar vocês, e sim para deixá-los mais ávidos. 

É uma livro denso e sofrido, mas ao mesmo tempo real. Não no sentido de ser uma história real, mas sim no sentido de proximidade. Em todo tempo durante a leitura, me senti uma amiga muito próxima da Kathy, uma pessoa em quem ela confiava para contar os segredos sombrios. E é claro que, como boa amiga que sou, não os contarei, mas vocês sabem a melhor maneira de descobri-los.

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Novidades #68: Giro Literário


Não é muito comum eu fazer dois posts de novidades subsequentes, mas desta vez tem tanta coisa boa para mostrar que está valendo a pena. Hoje vim informar sobre algumas novidades do blog e algumas divulgadas pelas editoras.
 
http://instagram.com/conjuntodaobra#
 
A primeira delas: O Conjunto da Obra está no Instagram. Quem acompanha as outras redes sociais do blog já deve ter visto por aí, mas não poderia deixar de avisá-los.
Estou em fase de testes, para ver se será mesmo interessante para o blog mais uma rede social, mas espero que dê certo. Quem quiser conferir (e seguir o blog, claro!), clique aqui.
 
A segunda novidade é que o mês de aniversário do Conjunto da Obra está chegando e, como sempre, já estou pensando nas melhores forma de presenteá-los. Por isso, fiquem ligados, nos próximos dias algumas promoções já vão ao ar!
 
~~*~~*~~
 
A Editora Leya (e seus selos) tem alguns eventos de lançamento agendados para os próximos dias em Porto Alegre, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Quem tiver interesse, vale a pena conferir.
 


 
~~*~~*~~
 
Vários lançamentos também são divulgados a todo o tempo, alguns deles bastante comentados nas redes sociais. Trouxe alguns da Editora Companhia das Letras e Galera Record. Para maiores informações, basta clicar nas capas:

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=55025http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13671http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13716

http://galerarecord.com.br/galera_livro.php?id=694http://galerarecord.com.br/galera_livro.php?id=699http://galerarecord.com.br/galerajunior_livro.php?id=702


 Então, gostaram das novidades?

Beijinhos,
 

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A cidade ilhada - Milton Hatoum

Fonte da imagem: Universo dos leitores.
 HATOUM, Milton. A cidade ilhada. Companhia das letras: 2009. 128 p.

Já há algum tempo que li Dois Irmãos, de Milton Hatoum, e simplesmente adorei. Considerando que era uma leitura obrigatória para vestibular, na época, imaginei que iria gostar ainda mais quando pudesse ler por opção. Acabei não buscando algo do autor por algum tempo, mas agora que tinha um livro de contos dele em mãos, tentei mergulhar na leitura de forma imparcial. E me surpreendi.

É impossível não se deixar envolver pelas palavras do autor. Carregadas de sentimentos reais, por vezes sombrios ou puros, fazem de contos simples uma obra para reler durante a vida. São textos originais, surpreendentes, que vão desde a loucura de Bárbara no Inverno à doçura de Um Oriental na Vastidão.

Não sei quanto disso é verdade, mas ouvi dizerem uma vez que Hatoum, considerado escritor contemporâneo, questionou o motivo de não ser considerado realista: "Porque não nasci no século XIX?". Encontros na Península, por exemplo, cita idéias de Machado de Assis, que, de acordo com o conto só falava de "loucos e adúlteros". E não falta disso em A cidade Ilhada: Bárbara no Inverno, já citado, O Adeus do Comandante, A Casa Ilhada, A ninfa do teatro Amazonas, o próprio Encontros na Península, entre outros, tratam de ao menos uma dessas características.

E de todos os contos, apenas dois não se passam ou citam Manaus. Como o próprio Hatoum cita, "para onde eu vou, Manaus me persegue" (pág. 26). É interessante ver como o autor mescla ficção e realidade. Fica quase impossível definir, em vários textos, quanto dos fatos narrados são ou não acontecimentos reais. Os próprios personagens, por vezes, aparecem em mais de um conto, como tia Mira e tio Ranulfo, que podem ser vistos também em seu romance Cinzas do Norte, de 2005; Lyris, personagem de Uma estrangeira na nossa rua, recebe uma dedicatória em Manaus, Bombaim, Palo Alto. E quanto do livro são fatos que ocorreram com Milton? Impossível saber.

A linguagem do autor é totalmente usual, o que facilita a leitura e a compreensão, e é por vezes carregada de uma ironia subentendida. Subentendida, por sinal, talvez seja exatamente a palavra para descrever esse livro. Nada é entregue de bandeja, como degustar um belo prato de olhos fechados. Sentir, perceber e imaginar.

Como já citei aqui no blog antes, me rendi aos contos. E os "finais" de Hatoum, abruptos, nos permitem visualizar uma continuação da forma que quisermos, ou odiar o autor por não nos contar. Mergulhei de cabeça em cada conto e queria mais, sempre mais... e havia nada além de questionamentos. Como a vida, que não sabemos como será e se realmente haverá um fim para determinados momentos. Isso não torna o livro ruim, entretanto. Foi exatamente essa antítese entre desejar e não receber que me fez gostar de cada vírgula dessa obra.

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Amrik - Ana Miranda

Sinopse: No final do século XIX, muitos cristãos libaneses pobres emigraram para a América - Amrik, em libanês. Mas nada era simples. ´Os libaneses saíam do Líbano, pensavam que estavam indo para a América do Norte [...] e desembarcavam na América do Sul. Quando iam reclamar que estavam na América errada, o estafeta dizia: ´Tudo é América!´ ´ A São Paulo do final do século passado retratada pelos olhos de uma dessas imigrantes - a bela Amina, dançarina ´dona de um narizinho de serpent of the Nile´ -, na prosa de uma de nossas mais talentosas escritoras. (Skoob)
MIRANDA, Ana. Amrik. Companhia das Letras: 2011. 208 p.

Amrik - América para os Libaneses - é narrado por Amina, que conta as dificuldades que teve, como imigrante, ao chegar no Brasil ao final do século XIX.

A história começa no Jardim da Luz, em São Paulo, quando Naim, tio da dançarina Amina, pergunta se ela aceita se casar com o mascate Abraão. E essa pergunta a faz se lembrar de toda a sua vida, desde a infância na aldeia do Líbano, com seu pai e seus irmãos, sua avó Farida que tanto amor lhe deu e que foi como uma mãe, já que a sua fugiu quando ainda era menina.

Amina se lembra de como o pai não gostava dela, a única filha mulher, pois para ele mulheres só existiam para fazer os homens sofrerem. Lembra-se de quando tio Naim pediu para que algum dos filhos fosse para a América com ele, e o pai a mandou embarcar no navio, deixando tudo o que conhecia para trás. E é entre todas essas, e também outras lembranças, que Amina vai nos contando sua história.

"Eu pensava que o Brasil era um lugar de abismos e depósito de imigrantes cachorros mortos que não conseguiam entrar na outra América, Brasil era um lugar de fracos, mercadores persas chineses tomadores de ópio negros africanos com cigarros saindo fumaça na orelha, insetos e charcos e enchentes e uma cruz no céu para mim queria dizer morte, crucificação de Jesus e o nosso sofrimento ia ser ali debaixo da cruz como Jesus sofreu na cruz, no Brasil havia padre demais e religião cada uma tão tola que nem brigavam por elas, pobreza, gente deitada nas ruas, jumentos zurrando na sombra das árvores [...]"

Achei a linguagem utilizada no livro bastante difícil, já que a autora tenta passar a idéia de que aquilo que está escrito é o que se passa na cabeça de Amina, seus pensamentos, e isso resulta em um texto desconexo, sem pontuação e que mistura diversas idéias em uma mesma "frase", além dos vários vocábulos árabes e expressões como "halalakala" inseridos entre palavras em português. O quote que coloquei acima já mostra um pouco como o texto está estruturado. É claro que essa "bagunça" foi elaborada para desempenhar uma determinada função, e observei que esta se assemelha à do livro Macunaíma (quem já leu ou tentou ler entenderá bem o que quero dizer), exceto pelo lado fantástico exorbitante deste último. Coloquei a palavra "frase" entre aspas porque cada capítulo é constituído de apenas um bloco, sem separações entre frases. O que facilita, neste caso, é que cada página representa um capítulo.

Assim que me acostumei com a forma escrita da obra, a leitura se tornou bem agradável, pois foi possível observar um pouco mais sobre a organização social do Brasil com a chegada dos imigrantes, o legado e a cultura de outros imigrantes que não alemães e italianos. Outro detalhe interessante, é que, até ler o livro, acreditava que os turcos e libaneses eram islamitas, mas me enganei terrivelmente. É claro que existem turcos e libaneses islamitas, mas há também cristãos, e Amina era cristã.

Durante a passagem do tempo, na história, percebe-se a mudança no perfil de Amina, de menina para mulher, a malícia que passa a assomá-la, as paixões que tomam seu coração, a alteração de seus objetos de desejo e suas tristezas. E, o que mais gostei, foi da inteligência ignorante de Amina, a criatividade que ela possuía, e as piadinhas de turco que me divertiram muito.

Não recomendaria essa leitura para quem quer apenas lazer, pois é um texto sem grandes atrativos e que pode se tornar cansativo para aqueles que não estão preparados para uma história mais monótona. Mas para aqueles que querem conhecer um pouco mais das histórias que complementam nosso país, com certeza vale a pena.

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