Não Me Abandone Jamais - Kazuo Ishiguro


Kathy H. tem 31 anos e está prestes a encerrar sua carreira de "cuidadora". Enquanto isso, ela relembra o tempo que passou em Hailsham, um internato inglês que dá grande ênfase às atividades artísticas e conta, entre várias outras amenidades, com bosques, um lago povoado de marrecos, uma horta e gramados impecavelmente aparados. Embora à primeira vista pareça pertencer ao terreno da ficção científica, o livro de Ishiguro lança mão desses "doadores", em tudo e por tudo idênticos a nós, para falar da existência. Pela voz ingênua e contida de Kathy, somos conduzidos até o terreno pantanoso da solidão e da desilusão onde, vez por outra, nos sentimos prestes a atolar.

ISHIGURO, Kazuo. Não me Abandone Jamais. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. 344 p.  

Pensei muitas vezes em como começar essa resenha e não consegui. Desculpem-me por introduzi-la assim, mas não encontrei outra forma de expressar o quanto esse livro foi difícil. Não digo isso porque foi uma leitura ruim, e sim porque foi pesada. Já fazia um bom tempo que eu tinha uma vontade imensa de lê-lo, e não me arrependi.

Logo no início do livro, conhecemos Kathy H, 31 anos, "cuidadora" há quase doze. É um tempo relativamente longo, mas é uma tarefa que ela mesma e muitos outros acreditam que ela desempenha muito bem. Prestes a ser tornar uma "doadora", Kathy nos conta de uma forma atemporal e bastante nostálgica sobre sua infância e adolescência em Hailsham, uma espécie de internato que se localiza no interior da Inglaterra. 

Ao longo da narrativa, Kathy nos apresenta seus amigos Tommy e Ruth. Para falar a verdade, não sabemos muitas coisas sobre Hailsham, sobre os guardiões (que são como os nossos professores) e sobre as crianças que lá residem. Porém, desde o início a protagonista deixa claro que os alunos de Hailsham eram diferentes, especiais, se só vamos saber o porquê dessa denominação um pouco mais para frente.

É complicado falar desse livro porque qualquer informação que eu possa dar sobre ele pode, de certo modo, prejudicar a leitura. Inclusive, a própria descrição da obra no Skoob e site da Companhia das Letras revela demais sobre ele. É uma estória para ser degustada, para descobrir aos poucos todos os mistérios que rondam as crianças de Hailsham.

"É um momento gélido, esse, o da primeira vez em
 que você se vê através dos olhos de uma pessoa assim. 
É como passar diante de um espelho pelo qual passamos
 todos os dias de nossas vidas e perceber que ele reflete 
outra coisa, uma coisa estranha e perturbadora."

O livro me trouxe muitos questionamentos, coisas que antes nunca haviam passado pela minha cabeça. O que nos torna essencialmente humanos? O que é o amor de verdade? Há forma de recuperar o tempo perdido? E se houvesse, será que eu o faria? O tempo que nós temos é suficiente para fazer todas as coisas que desejamos e, principalmente, para amar as pessoas? Aliás, o que é mesmo o tempo?

Há também um filme homônimo, que foi dirigido por Mark Romanek e tem um elenco muito bom. Apesar de eu ainda não ter assistido, só pelo trailer dá para perceber que muitos fatos que descobrimos só após algum tempo no livro, são deixados claros desde o início na adaptação. Por isso, aconselho que, se você tiver o interesse de ler a obra, não assista ao trailer. Aliás, não procure saber muitas coisas a mais porque sim, pode tirar o brilho da história. 

Não Me Abandone Jamais é um livro naturalmente triste. Acho que já comentei sobre isso aqui algumas vezes, mas apesar de não ter muitos planos para o futuro, tenho muito medo de ficar sozinha, no fim. Apesar de o livro não retratar exatamente isso, terminei-o com esse sentimento de solidão. Foi bem angustiante ir descobrindo as coisas por trás da vida dos protagonistas. Assustador, até. Mas esse fato não é para intimidar vocês, e sim para deixá-los mais ávidos. 

É uma livro denso e sofrido, mas ao mesmo tempo real. Não no sentido de ser uma história real, mas sim no sentido de proximidade. Em todo tempo durante a leitura, me senti uma amiga muito próxima da Kathy, uma pessoa em quem ela confiava para contar os segredos sombrios. E é claro que, como boa amiga que sou, não os contarei, mas vocês sabem a melhor maneira de descobri-los.

Ana Clara
Ana Clara

Amante de livros sonha em ter uma biblioteca gigantesca em casa. Lê qualquer coisa que colocarem na frente, desde biografias a rótulos de shampoo. Detesta cachorros e, para ela, os gatos são as criaturas mais fantásticas do mundo. Quando o assunto é música, não cansa de mostrar seu amor pelos Beatles, além de ser fã de fé dos Engenheiros do Hawaii. Também é apaixonada por MPD e louca por O Teatro Mágico do último fio de cabelo até a planta dos pés. Se quiserem saber mais, acompanhem também o blog Roendo Livros.

8 comentários:

  1. OI Ana

    Antes de saber que Não Me Abandone Jamais era uma adaptação coloquei o filme na minha lista de "quero assistir". A sinopse chamou minha atenção, mas acabei protelando para assistir porque senti que encontraria uma história pesada e difícil. Lendo sua resenha vejo que estava certa, mas o meu desejo de assistir/ler, conhecer essa história ficou ainda maior.
    Por tudo que você disse sinto que preciso estar muito preparada para o que encontrarei e preciso que a leitura seja no momento certo.

    Beijos
    Mundo de Papel

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    1. Oie!

      O filme também e maravilhoso! Mas acho que seria bom mesmo você ler antes de assistir. Até porque o filme meio que começa com a gente já sabendo o que acontece no final, é meio foda.

      Beijo!

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  2. Olá Ana,

    Esse é mais um livro que fico conhecendo aqui no blog e olha que livro hein, a sinopse é boa, mas a resenha me deixou super curioso, espero ler um dia, ótima dica...abraço.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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    1. Oi Marco!

      Nossa, você não imagina o quanto eu fico feliz em ler isso. É incrível saber que consegui deixar as pessoas curiosas em relação a algum livro. Espero que você goste.

      Beijo!

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  3. Oi Ana, eu já tinha visto algum comentário que citava o livro, mas nenhuma resenha sobre ele. Nem a capa eu tinha visto. Mas adorei o que você comentou sobre ele. Por mais que seja triste, parece ter uma carga que mexe conosco, que vai nos fazer levar algumas coisas para o resto da vida.
    Fiquei curiosa para conhecer o livro também.

    Beijos

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    1. Oi Ju! <3

      Primeiro: acho essa capa linda, acho o título incrível também. E realmente, existem poucas resenhas dele na blogosfera. O livro é triste sim, mas é maravilhoso.

      Beijo!

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  4. a Ana que resenha! Kathy me parece uma personagem forte apesar do sofrimento. não conhecia o livro, é mesmo tenso, pesado mas que também é uma história de superação. vou procurar o livro antes de ver o filme =)

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    1. Oi Aninha!

      Sim, acho que nunca li nenhuma personagem tão forte quanto ela, que aguenta muita merda viu. Espero que você goste de ler!

      Beijo!

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