A Criança no Tempo - Ian McEwan

Sinopse: Do autor de Reparação e Enclausurado e vencedor do Man Booker Prize, um romance contundente sobre a dor do desaparecimento de um filho. Numa ida rotineira ao supermercado, Stephen Lewis, escritor bem-sucedido de livros infantis, se depara com a maior agonia de um pai: Kate, sua filha de três anos, desaparece sem deixar rastros. Numa imagem terrível que se repete ao longo dos anos seguintes, ele percebe que a garota não vai voltar. Com ternura e sensibilidade, Ian McEwan nos leva ao território sombrio de um casamento devastado pela perda de um filho. A ausência de Kate coloca a relação de Stephen e de sua esposa Julie em xeque, enquanto cada um deles enfrenta à sua maneira uma dor que só parece se intensificar com o passar do tempo. Vencedor do Whitbread Award, A criança no tempo discute temas como ausência, luto, culpa e as marcas indeléveis que um acontecimento pode deixar em uma família. Um romance surpreendente de um dos melhores escritores de sua geração. “Sua obra-prima.” — Christopher Hitchens “Somente Ian McEwan poderia escrever sobre a perda com tamanha honestidade.” — Benedict Cumberbatch “Fiel à realidade psicológica: as belas camadas dos relacionamentos, o amor multifacetado entre pai e filho, marido e mulher… Tão artisticamente concebido quanto pungentemente executado.” — The New York Times Book Review (Skoob)

Livro recebido como cortesia da Editora
MCEWAN, Ian. A Criança no Tempo. Companhia das Letras, 2018. 288 p.


A Criança no Tempo conta a história de Stephen e Julie, um casal que perdeu a pequena filha, Kate, na fila do caixa de um supermercado. O protagonista da história é o pai, que por um acaso é escritor de livros infantis. Apesar de terem se passado dois anos, o homem ainda procura, agora involuntariamente, por crianças pequenas na rua, na esperança de que uma delas seja a filha perdida. A mulher, Julie, é música e entra em uma depressão profunda após o desaparecimento da menina, se isolando do mundo.

“Qualquer menina de cinco anos – embora os garotos também servissem – emprestava substância à sua continuada existência. Nas lojas, ao passar pelos parquinhos, na casa de amigos, ele não podia deixar de procurar por Kate em outras crianças, ou nelas ignorar as lentas mudanças, as competências crescentes, ou deixar de sentir a potência irresistível de semanas e meses, do tempo que devia ser dela. O crescimento de Kate tinha se transformado na própria existência do tempo. Seu crescimento espectral, o produto de uma tristeza obsessiva, era não apenas inevitável – nada era capaz de fazer parar o relógio fibroso – mas necessário. Sem a fantasia de sua continuada existência, ele estava perdido, o tempo pararia. Era o pai de uma criança invisível.”

Após passar por um trauma de tamanha proporção, não é preciso dizer que o mundo do casal é completamente abalado e cada um tenta sobreviver de maneiras diferentes, separados um do outro. O tempo, ou a noção dele, é um pouco perdida, o que simboliza bem a forma como a tragédia afeta os personagens. Vemos, ao mesmo tempo, um pouco do passado, do presente, e até mesmo do futuro, o que pode nos ambientar de maneira fantástica na história ou nos deixar completamente perdidos.

Não vou mentir, para mim a leitura foi muito difícil, um pouco pela temática e um pouco pela forma como o autor nos conta a história. Tem sido um mês difícil para mim nas leituras e a monotonia do livro não ajudou muito. Não é uma história ruim, mas pela sinopse eu esperava mais, achei que ficaria mais envolvida com os personagens e com a trama.

O livro foi escrito na década de 80, então tem muitos elementos aos quais eu não estou acostumada e, por um lado, eu tento ler coisas novas, novos gêneros para não ficar sempre no mesmo clichê mas, por outro, não consegui me concentrar na leitura então tive que reler muitas vezes a mesma página para entender o que estava acontecendo. Isso afetou muito a compreensão da obra como um todo, fazendo com que eu não conseguisse aproveitar a leitura da forma como deveria.

De uma forma geral, o autor descreve muito bem os sentimentos dos personagens e retrata da forma mais autêntica possível como um casal é abalado após a perda de um filho. Eu particularmente nunca passei por nada parecido, mas infelizmente conheço quem já passou por isso, de uma forma diferente, mas a perda de alguém tão querido que ainda tinha uma vida inteira pela frente não é nada fácil. Então, acredito que o autor relatou tudo de forma que pudéssemos realmente compreender os sentimentos dos personagens e o que os levou a se sentir de tal forma.

“Ao ver os rostos dos pais, Stephen não reparava tanto nos efeitos da idade mas na devastação causada pelo desaparecimento de Kate. Ela agora era raramente mencionada, razão pela qual tanto se surpreendera vinte minutos antes. A perda da única neta tinha embranquecido os cabelos do pai em dois meses, enquanto os olhos da mãe se afundaram em meio às rugas. Os anos da aposentadoria haviam sido construídos em torno da neta, para quem aquela sala fora um paraíso de objetos proibidos. Ela podia passar meia hora sozinha, o queixo apoiado no aparador, costurando obscuros diálogos em que fazia as vozes da bicharada em chiados agudos. Exceto pelos sinais físicos, Stephen não flagrara o sofrimento de seus pais. Eles não desejavam deixar o fardo dele ainda mais pesado. Era típico daquilo que os unia o fato de nunca terem sido capazes de chorar juntos por Kate. Pronunciar seu nome, como o pai fizera, significava romper uma regra não escrita.”

Foi a primeira obra de Ian McEwan que li e espero ter a oportunidade de ler outra história do autor para entender melhor seu estilo. A Criança no Tempo, para mim, foi uma leitura difícil e pesada, mas para quem gosta do estilo vale muito a pena.

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Top Comentarista - Outubro


Outubro também tem Top Comentarista! As regras serão semelhantes às dos outros meses, ok?

Para se inscrever é preciso:
  • Seguir o Conjunto da Obra pelo Google Friend Connect (clicar em "Participar deste Site" na barra lateral direita).
  • Ter endereço de entrega em território Brasileiro.
  • Preencher o formulário abaixo.
  • Comentar em todos os posts publicados no mês de outubro, exceto os de lançamentos de novas promoções, inclusive na resenha de A geografia de nós dois.

Serão cinco títulos disponíveis:


1. No tempo dos feiticeiros
2. O fundo é apenas o começo
3. Depois da última dança
4. Simplesmente acontece
5. Louco por você

  • Seguidas todas as regras iniciais, para participar, basta preencher a primeira entrada do formulário. A primeira entrada confirma sua participação no Top Comentarista, enquanto as demais constituem chances extras, sendo opcionais.
  • Serão considerados válidos os comentários nas postagens do mês de outubro se feitos até o dia 1º de novembro. Ou seja, será concedido um dia a mais para que os participantes consigam comentar nas últimas postagens do mês.
  • O participante deve fazer comentários válidos, que demonstrem que a postagem foi lida. Não adianta dizer que está curioso para conhecer a história, isso não é suficiente, e o participante será desclassificado.
  • O vencedor será definido por sorteio, dentre os participantes que comentarem em todas as postagens do mês. Apenas depois de feito o sorteio será conferido se o sorteado comentou em todas as postagens do mês. Caso essa regra não seja cumprida, o mesmo será desclassificado, e um novo sorteio será realizado.
  • O sorteado escolherá o livro que deseja ganhar da lista de livros citada acima.
  • O sorteado será contatado por e-mail, tendo o prazo de 24h para fornecer seus dados. Caso não envie resposta no prazo, será realizado novo sorteio.
  • O prazo para envio dos prêmios é de 60 dias após o recebimento dos dados dos vencedores.
  • O Conjunto da Obra não se responsabiliza por extravio ou atraso na entrega dos Correios. Assim como não se responsabiliza por entrega não efetuada por motivos de endereço incorreto, fornecido pelo próprio ganhador e o livros não será enviado novamente;
  • A Equipe do Conjunto da Obra se reserva ao direito de dirimir questões não previstas neste regulamento.
  • Esta postagem também conta para o Top Comentarista.

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Boa sorte!

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A geografia de nós dois - Jennifer E. Smith

Lucy mora no vigésimo quarto andar. Owen, no subsolo... E é a meio caminho que ambos se encontram - presos em um elevador, entre dois pisos de um prédio de luxo em Nova York. A cidade está às escuras graças a um blecaute. E entre sorvetes derretidos, caos no trânsito, estrelas e confissões, eles descobrem muitas coisas em comum. Mas logo a geografia os separa. E somos convidados a refletir... Onde mora o amor? E pode esse sentimento resistir à distância? Em A Geografia de Nós Dois, Jennifer E. Smith cria tramas cheias de experiências, filosofia e verdade. (Skoob)
SMITH, Jennifer E. A geografia de nós dois. Galera Record, 2016. 272 p.


"No primeiro dia de setembro, o mundo ficou escuro."

Um blecaute acontece. Nova York apaga-se. Dois jovens ficam preso num elevador. O amor acontece. (Ah, o amor!)

Lucy e Owen são duas pessoas diferentes trancadas dentro de um cubículo por poucos minutos, menos de uma hora, mas a ligação daquele momento foi maior do que sentiram a vida toda. Depois que são resgatados, eles passam o resto da noite sozinhos juntos, subindo e descendo escadas, tomando sorvetes derretidos, discutindo sobre cartões postas e "queria que você estivesse aqui", e sobre onde realmente queriam estar.

Mas é uma noite, apenas uma noite - e sol nasce, a energia volta e eles se veem jogados para direções opostas, sem esperança de voltarem a se chocarem alguma vez, novamente, quem sabe.

"Se traçassem um mapa dos dois, de onde tinham começado e de onde terminariam, as linhas seguiriam para longe uma da outra como ímãs de polos opostos. (...) O mapa era o mesmo que uma porta prestes a se fechar. E a geografia da situação - a geografia dos dois - estava completa e irremediavelmente errada."

Meu primeiro pensamento ao estar lendo era que seria Lucy e Owen no elevador escuro e... Uma história meio que A probabilidade estatística do amor à primeira vista da mesma autora, onde eles se conhecem em pouco tempo mais do que conseguiriam se tivesse muito tempo, dizendo coisas a um estranho que nunca diria a um melhor amigo, protegidos pela certeza que nunca terão essa oportunidade de novo. Não é isso que acontece.

A geografia de nós dois é o que título diz, é sobre o espaço, a geografia, entre eles. Lucy acaba se mudando para Algum Lugar e Owen se ver numa viagem pelo país a procura de Qualquer Lugar. Numa piada e num desejo de manterem contatos, eles ficam mandando cartões postais, mas... não funciona. O momento esfria, vira uma lembrança borrada, a alegria parece um sonho distante e perdido e eles param de se falar.

Mesmo que não queiram. Mesmo que ainda pensem um no outro. As coisas são como são.

Ou talvez não.

"Quanto tempo se pode de fato esperar que uma única noite dure? Até que ponto se pode esticar um conjunto tão pequeno de minutos? Ele era apenas um garoto em um terraço. Ela era apenas uma garota em um elevador. Talvez tenha sido o fim."

É linda a forma como a autora terminava um capítulo e continuava o outro, como eles se completavam, como se diferenciavam. Lucy e Owen são pessoas diferentes, pessoas que nunca teriam conversado se não fosse pela escuridão do elevador, mas eles conversaram e uma conversa bastou - eles não se apaixonaram, mas uma conversa foi o suficiente para que a perspectiva de algo mais, quem sabe, no futuro, acontecer. E isso é lindo.

Leiam. Simples assim. Esse livro difere de A probabilidade estatística do amor à primeira vista, mas te prende tanto quanto. A narração da autora em terceira pessoa, alternando entre os protagonistas, é encantadora; e ela retratou um romance juvenil à distância com todos os problemas que merecem ser discutidos sem drama desnecessário (autores adoram dramas desnecessário), e você se identifica-se com ambos, concorda com os dois, e não irá acreditar em amor à primeira vista (se for eu, não, nada contra quem acredita), mas acreditará como algumas coisas são como são, apesar de nada ser como é... Do que eu estou falando?

"Talvez nunca estivessem destinados a mais que uma única noite. Afinal, nem tudo pode durar. Nem tudo deve ter algum significado."

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O fundo é apenas o começo - Neal Shusterman

Sinopse: Uma poderosa jornada da mente humana, um mergulho profundo nas águas da doença mental.
CADEN BOSCH está a bordo de um navio que ruma ao ponto mais remoto da Terra: Challenger Deep, uma depressão marinha situada a sudoeste da Fossa das Marianas.
CADEN BOSCH é um aluno brilhante do ensino médio, cujos amigos estão começando a notar seu comportamento estranho.
CADEN BOSCH é designado o artista de plantão do navio, para documentar a viagem com desenhos.
CADEN BOSCH finge entrar para a equipe de corrida da escola, mas na verdade passa os dias caminhando quilômetros, absorto em pensamentos.
CADEN BOSCH está dividido entre sua lealdade ao capitão e a tentação de se amotinar.
CADEN BOSCH está dilacerado.
Cativante e poderoso, O Fundo é Apenas o Começo é um romance que permanece muito além da última página, um pungente tour de force de um dos mais admirados autores contemporâneos da ficção jovem adulta. (Skoob)

Livro recebido em parceria com a Editora
SHUSTERMAN, Neal. SHUSTERMAN, Brendan. O fundo é apenas o começo. Valentina, 2018. 272 p.


Sei que a Bela, colunista aqui no blog, recentemente resenhou O fundo é apenas o começo, de Neal Shusterman, mas por coincidência, também estava lendo esse livro e achei importante falar sobre ele novamente, em especial porque minhas impressões foram um pouco diferente das dela. O livro é ótimo e traz reflexões essenciais, mas tive alguns problemas durante a leitura que acho interessante mencionar.

"Fiquei pasmo de ver como as pessoas podem viver assim tão próximas, como é possível estar literalmente cercado por milhares de seres humanos a apenas centímetros uns dos outros - e ainda assim, completamente isolado. Eu achava difícil imaginar uma coisa dessas. Agora, não acho mais."

O fundo é apenas o começo trata as doenças mentais de uma forma muito lúcida. Através da narrativa de Neal Shusterman, é possível entrar na cabeça de uma pessoa que sofre dessa doença e é sufocante, por ser tão real. É como um mergulho aos cantos mais profundos da mente e, assim como o próprio personagem, é difícil ao leitor identificar o que é real ou não, porque ele vive tudo aquilo, mesmo que de uma maneira não convencional.

Acredito que, por ter acompanhado seu filho, Brendan, durante uma jornada semelhante à do personagem do livro, o autor escreva com tanta propriedade sobre o assunto e consiga demonstrar, de fato, o que é a doença mental e como ela pode surgir inesperadamente. Não há rótulos aqui, a doença do protagonista, Caden, não é classificada no livro e, em um trecho do livro, o personagem conversa sobre isso e fica claro que a classificação da doença é só uma tentativa de facilitar o tratamento, já que a mente humana é tão complexa.

"Você sabe que pode tornar o navio de piratas tão real quanto qualquer outra coisa, porque não há mais diferença entre o pensamento e a realidade."

No decorrer do livro, os acontecimentos ficam mais nítidos e as cenas começam a fazer mais sentido. Tudo o que o personagem descreve tem alguma justificativa, tudo se encaixa depois que se compreende o contexto. Acredito que essa construção do texto tenha contribuído em muito para a compreensão do personagem, já que o leitor dá um salto no escuro, sem nenhuma explicação prévia, e só quando já conhece os fatores envolvidos é que compreende o porquê deles. Como já comentei, o livro é ótimo, acho que nunca tinha tido contato com uma trama que me permitisse compreender tão bem o tema quanto essa.

O meu único problema durante a leitura foi o momento. Comecei o livro em uma fase de muito estresse na minha vida, então a mistura de realidade e imaginação e a sensação de angústia pela situação do personagem não ajudaram para que eu me envolvesse com a história. Eu tinha a mesma sensação de afastamento que Caden, o que me impediu de criar vínculos e obstou meu interesse em continuar o livro. Levei semanas para concluir a leitura, ficava dias sem tocar no livro e, só quando estava da metade para o final é que o enredo se tornou mais interessante. Por isso, acredito que a leitura será muito mais prazerosa para aqueles que estejam em uma fase leve e possam se envolver emocionalmente com uma história como essa.

De qualquer forma, O fundo é apenas o começo traz lições importantíssimas e esclarecimentos essenciais para diminuir preconceitos acerca das doenças mentais. Quem tiver interesse em conhecer mais sobre o tema, leitura mais do que recomendada.


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O ódio que você semeia - Angie Thomas

Sinopse: Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial. Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente. Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos - no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início. Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa. Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, divertida, mas ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar. (Skoob)
THOMAS, Angie. O ódio que você semeia. Rio de Janeiro: Editora Galera, 2017. 378 p.


No Brasil, um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos. Em agosto de 2014, Michael Brown foi morto, aos 18 anos, por um policial branco em Ferguson (Missouri). Ele não portava armas e não possuía antecedentes criminais. O júri decidiu não processar Darren Wilson "porque considerou que não existem provas suficientes para processá-lo pelo assassinato". Seis tiros tiraram a vida de Brown. Em julho do mesmo ano, Eric Garner foi asfixiado por um policial branco por cerca de 15 segundos que foram suficientes para matá-lo. O assassinato aconteceu em Nova Iorque. Eric Garner era negro. O policial que cometeu o crime também foi inocentado pelo júri. 

O ódio que você semeia foi inspirado na história desses dois jovens, que deram voz ao movimento global Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). O BLM começou nos Estados Unidos, onde ativistas saíam em favor às vítimas da violência policial. Assim como aconteceu com Brown e Garner, Khalil, melhor amigo da protagonista Starr, foi morto à tiros por um policial branco. Starr presenciou tudo. Khalil não estava fazendo nada de errado, não portava armas, era só um adolescente de 16 anos. A partir dessa experiência tão horrível, Starr começa a pensar sobre o que é justiça, se ela realmente existe e, o mais importante, se é válida. 

Nesta história, Angie Thomas aborda vários temas importantes para todo mundo, como racismo, injustiça, lutas diárias, privilégios e muitas outras questões que, sinceramente, precisam ser discutidas. Eu, como pessoa branca, não consigo explicar para nenhum de vocês de forma satisfatória o que foi ler a história de Starr. Quer dizer, meus pais nunca precisaram me ensinar o que fazer se eu fosse parada pela polícia em uma blitz. Eu nunca vi nenhuma pessoa sendo morta. Eu não tenho a mínima ideia de como é o barulho de um tiro. O livro traz, o tempo todo, esse tipo de reflexão e as coisas foram jogadas na minha cara de uma forma que tudo o que eu conseguia pensar é o quão privilegiada sou por não presenciar ou sofrer tanta coisa absurda simplesmente por ser branca, e eu realmente me senti péssima por isso.

Também somos inseridos no dia a dia de Starr, uma adolescente negra que estuda em um colégio branco, filha de um ex-presidiário que deu a volta por cima. Justamente pelo fato de frequentar um colégio fora do seu bairro, a gente consegue mais do que nunca enxergar o choque de duas realidades totalmente diferentes, opostas. Eu não consigo pensar em outra coisa para falar sobre O ódio que você semeia a não ser o quanto ele é importante e bom. A história é sensacional e, o melhor de tudo, real. A narrativa é sem comparações. Os personagens são incríveis. Tudo, tudo é digno nesse livro. 

Eu não sei como a história de Khalil e Starr chegará para outras pessoas, mas provavelmente vai ficar na minha cabeça por muito tempo. Cada capítulo me proporcionou uma emoção diferente e é isso o que eu quero sentir sempre que estou lendo um livro. Eu chorei porque é muito difícil saber de todos os meus privilégios enquanto tantas outras pessoas estão em outros lugares sofrendo, vendo pessoas queridas morrerem, sendo julgadas. 

O ódio que você semeia é um livro difícil, pouco confortável — não digo isso em um sentido pejorativo, e sim porque é uma história extremamente dolorosa —, mas necessário para mostrar que coisas ruins acontecem o tempo todo, mesmo que não aconteçam comigo. Às vezes tudo o que a gente precisa são histórias que nos mostrem a realidade, ainda que não sejam fáceis.

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Six of Crows: Sangue e Mentiras - Leigh Bardugo

Sinopse: A oeste de Ravka, onde Grishas são escravizados e envolvidos em jogos de contrabandistas e mercadores, fica Ketterdam, capital de Kerch, um lugar agitado onde tudo pode ser conseguido pelo preço certo. Nas ruas e nos becos que fervilham de traições, mercadorias ilegais e assuntos escusos entre gangues, ninguém é melhor negociador que Kaz Brekker, a trapaça em pessoa e o dono do Clube do Corvo. Por isso, Kaz é contratado para liderar um assalto improvável e evitar que uma terrível droga caia em mãos erradas, o que poderia instaurar um caos devastador. Apenas dois desfechos são possíveis para esse roubo: uma morte dolorosa ou uma fortuna muito maior que todos os seus sonhos de riqueza. Apostando a própria vida, o dono do Clube do Corvo monta a sua equipe de elite para a missão: a espiã conhecida como Espectro; um fugitivo perito em explosivos e com um misterioso passado de privilégios; um atirador viciado em jogos de azar; uma grisha sangradora que está muito longe de casa; e um prisioneiro que quer se vingar do amor de sua vida. O destino do mundo está nas mãos de seis foras da lei – isso se eles sobreviverem uns aos outros. (Skoob)
BARDUGO, Leigh. Six of Crows: Sangue e Mentiras. Six of Crows #1. Gutenberg, 2016. 376 p.


Kaz Brekker não é um simples ladrão ou assassino ou qualquer coisa tipo, ele é pior do que isso: ele é um homem de negócios. Conhecido como Mãos Sujas por todos, por não recusar um trabalho, por nenhum trabalho ser ruim o suficiente pelo preço certo (e talvez um pouquinho a mais), todos que o conhecem sabe que ele é um verdadeiro demônio.

Quando Van Eck, um mercante de trabalho "limpo", o contrata para invadir a Corte de Gelo, uma prisão Grisha (seres humanos com poderes não naturais, acusados por simplesmente existirem) nunca antes invadida, para tirar um cientista que conseguiu criar uma droga capaz de tornar os Grisha ainda mais perigosos e mortais e viciados na primeira dose, Kaz sabe que só é mais um trabalho, como todos os outros, e que, pelo valor adequado, pode ser realizado.

Mas, para isso acontecer, Kaz também precisa da equipe certa para o trabalho.

"Um apostador, um criminoso condenado, um filho desgarrado, uma Grisha perdida, uma garota Suli que se transformou em assassina, um garoto do Barril que se tornou algo pior."

Os primeiros capítulos do livro são a apresentação aos personagens, conforme Kaz os integra na sua equipe, para essa missão quase que impossível - impossível quer dizer apenas "nunca antes feito" e essas pessoas, escolhidas a dedo por Kaz Brekker, tornarão o impossível possível e receberão cada um a sua parte da bolada. Ou morrerão tentando.

A esquipe é formada por: Inej, a Espectro, com passos silenciosos, que descobre todos os segredos para Kaz, e facas perigosíssimas; Jesper, um atirador de elite viciado em jogos de azar, com uma energia que o impede de ficar parado; Ninas e Mathias, dois ex-amantes, dois ex-atual-nêmesis, uma Grisha e seu caçador; Wylan, filho do contratante e seguro deles de que receberam realmente o dinheiro, que deixou a segurança de sua casa para viver no meio do Barril (por quê?); e Kaz, o mais sombrio e perigoso de todos eles, com sua perna problemática e sua bengala com cabeça de corvo.


“-Quem negaria uma bengala a um aleijado?
-Se o aleijado for você, qualquer homem de bom senso.”

“-Não confiaria em você para amarrar meus sapatos sem roubar os cadarços, Kaz."

Uou. U-o-u. Estou sem palavras. Quem precisa de palavras, a propósito? Certamente não eu. Todas que poderiam ser útil para descrever como me sinto depois de ler essa história, Leigh usou. Sem dor nem piedade. Quem precisa delas também? Não Kaz. E eu não sei nem como começar a falar dos personagens, dos seis protagonistas que são igualmente importante e valiosos para a equipe, cada um com a sua história de fundo e narração. A autora soube como criá-los únicos e diferentes e ainda conseguiu fazê-los trabalhar juntos, fazendo-os gradualmente e de forma tão sutil, que eles só percebem quando está lá, na frente deles, que eles se tornaram amigos e confiam um no outro para não serem esfaqueados pelas costas ou enquanto estão dormindo.

Tudo com essa história foi sutil, começando pelo romance. O que eu adorei sobre o romance foi que os beijos foram escassos (se é que teve, eu não lembro), que o amor romântico está nos olhares e no toque demorado e na preocupação - e que eles não pararam o que faziam, no meio da pior e mais perigosa situação possível, para se beijarem e esquecerem tudo ao redor deles.

Six of Crows: Sangue e Mentiras estava na minha lista de leitura a um tempo e eu não estava me sentindo animada para lê-lo, embora ame essas histórias de roubo e planos perfeitos que dão errado. Só conseguir me convencer a ler depois que fiquei curiosa com uma postagem no tumblr, que falava da diversidade LGBTQIA+ no livro (eu não vi tanta assim, talvez no próximo), mas eu amei o que tinha e me arrependo de não ter lido antes.


"Posso te contar o segredo do amor verdadeiro? [...]Muitos meninos trarão flores para você. Mas um dia você vai conhecer um menino que vai aprender a sua flor favorita, a sua canção favorita, o seu doce favorito. E mesmo que ele seja muito pobre para lhe dar qualquer um deles, não importa, porque ele terá dedicado tempo a conhecê-la como ninguém mais fez. Só esse menino merece seu coração."

Sim, romance. Ai. Meu. Coração. Quem precisa de romance nesse mundo frio e nefasto e simplesmente horrível? Eu. Minha sorte que me contento com livros e esse foi um amorzinho, com toda a variedade de casais que eu poderia querer e torcer. Eu amei o fato de não ter triângulo amoroso, a propósito, porque essa parece ser a técnica preferida dos autores de fazer o romance andar. Nós temos Kaz e Inej, Nina e Matthias, e - a surpresa do livro (eu não esperava, acho que ninguém esperava) - Jesper e Wylan. Oh, meu... Ai. Eu estou tendo um ataque de amor pelo Jesper e pelos flertes dele. Melhores partes. Concordo com ele quanto "isso é tão bom quanto brigar, mas um pouquinho melhor"... ele não disse exatamente isso, mas foi isso sim.

Meu único problema foi a política. Eu não entendi muito bem ela, são um monte de nomes no livro que não foram  nem um pouco comuns para mim e, de forma simples, o que eu entendi foi que o lugar de onde eles estão é neutro em relação aos Grishas, usando-os como servos para pagar o que deve, não deve e até com o que eles poderiam sonhar em dever (não existe escravidão em Kerch!), enquanto tem os Fjerdanos que acreditam que eles merecem ser mortos e outro povo que abriga Grishas e os ensina a lutar. Ao menos foi assim que eu entendi. Quem não leu a outra série de Leigh (como eu), talvez se sinta um pouco perdida quanto aos Grishas. E com curiosidade de ler mais os livros dessa autora surpreendente. (Como eu.)

“-Qual é a maneira mais fácil de roubar a carteira de um homem?
-Faca na garganta? - perguntou Inej.
-Arma nas costas? - disse Jesper.
-Veneno no copo? - sugeriu Nina.
-Vocês são todos horríveis - disse Matthias."

O final foi algo meio que esperado, mas você não fica assim como eu fiquei por algo esperado, foi pela ousadia de Leigh Bardugo ao fazer isso - ousadia de alguém digno de ter criado Kaz Brekker.

Fico feliz de o próximo livro ser o último e isso ser uma duologia. Não existe fórmula mágica e se você tenta utilizá-la demais, todos descobrem seu segredo e a graça se perde, os personagens perdem os encantos e a verossimilidade, e você fica enjoada das mesmas coisas. Eu ainda não estou enjoada e mal posso esperar por mais trapaças de Kaz, o aleijado do Barril e Mãos Sujas, e sua pequena e confiável gangue.

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Promoção: Aniversário Além da Contracapa


Aniversário tem que ter presente e nos 7 anos do Além da Contracapa eles vão todos para os leitores. O Conjunto da Obra não Poderia ficar de fora, é claro.

E não deixe de acessar o Além da Contracapa para conferir todos os prêmios. 

Regulamento:

A promoção terá início no dia 22 de setembro e término no dia 22 de outubro.

Para participar, basta preencher o formulário abaixo, usando sua conta do Facebook ou seu e-mail, e ter um endereço de entrega no Brasil.

Todas as entradas são opcionais.

O resultado será divulgado no blog e nas redes sociais até três dias após o encerramento da promoção, sendo que o sorteado será contatado por e-mail, tendo o prazo de 48 horas para fornecer seus dados e o blog se responsabiliza por confirmar o recebimento das informações. 

Prêmios

Além da Contracapa: Justiça Ancilar
Alegria de viver e amar o que é bom: Proibido - Tabitha Suzuma
Canto Cultzíneo: A Outra Vida - Suzanne Winnacker
Caverna Literária: Uma Canção para Jack - Celia Bryce
Conjunto da Obra: O Colecionador de Memórias - Cecilia Ahern
Livro Lab: Ferinos: O Encantador de Corvos - Jacob Grey
Meu Epílogo: Homens, Mulheres e Filhos - Chad Kultgen
Minha Vida Literária: Querido Mundo - Bana Alabed
My Dear Library: Dias de Despedida - Jeff Zentner
Prefácio: Vale-presente Saraiva no valor de 30 reais
Queria Estar Lendo: e-book Estrelas Perdidas - Bianca da Silva e e-book Rubi de Sangue - Denise Flaibam
Revelando Sentimentos: Eu, inabalável
Roendo Livros: Tudo Junto e Misturado - Ann Brashares
She is a Bookaholic: O Morcego - Jo Nesbo




primeiro sorteado poderá escolher 6 prêmios entre as 15 opções, o segundo sorteado poderá escolher 5 prêmios entre as 9 opções restantes, e o terceiro sorteado ficará com os 4 prêmios restantes. 

O prazo para envio dos prêmios é de 40 dias úteis. 

A Equipe do Além da Contracapa se reserva ao direito de dirimir questões não previstas neste regulamento.



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Vidas Muito Boas - J. K. Rowling

Sinopse: “Como podemos aproveitar o fracasso?” “Como podemos usar nossa imaginação para melhorar a nós e os outros?”. J.K. Rowling responde essas e outras perguntas provocadoras em Vidas muito boas, versão em livro do famoso discurso de paraninfa da autora da série Harry Potter na Universidade de Harvard, que chega às livrarias brasileiras no dia 7 de outubro. Baseado em histórias de seus próprios anos como estudante universitária, a autora mundialmente famosa aborda algumas das mais importantes questões da vida com perspicácia, seriedade e força emocional. Um texto cheio de valor para os fãs da escritora e surpreendente para todos que buscam palavras inspiradoras. (Skoob)
ROWLING, J. K. Vidas Muito Boas. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2017. 80 p.


É inevitável me interessar pelas coisas escritas pela mulher que deu vida a um dos meus personagens preferidos — e que provavelmente introduziu várias pessoas no mundo literário. J. K. Rowling é, provavelmente, uma das maiores fontes de incentivo e inspiração que existem, principalmente àqueles que conhecem a sua história e reconhecem a mulher batalhadora que ela é.

Vidas Muito Boas é um livro com pouquíssimas páginas, e se trata de um discurso que a autora fez para uma turma de formando de Harvard em 2008 como paraninfa. Eu não consigo imaginar a emoção que essas pessoas sentiram ao escutar conselhos vindos de uma pessoa que não tinha absolutamente nada — como ela mesma disse, ela era "tão pobre quanto é possível ser na Inglaterra moderna, sem ser uma sem teto" — vencer na vida de forma tão maravilhosa. 

"[...] a felicidade pessoal está em saber que a vida não é uma checklist de aquisições ou realizações. Suas qualificações, seu currículo, não são sua vida..."

Dentre os temas abordados por Rowling em seu discurso, posso destacar a importância da imaginação e o seu poder de nos fazer sentir empatia pelas pessoas, e a valorização do fracasso. Sim, a autora deixa claro que o fracasso, apesar de não ser nem um pouco divertido, é importante para conseguirmos dar a volta por cima ou, em suas próprias palavras, "[...] o fundo do poço tornou-se a base sólida sobre a qual eu reconstruí minha vida".

O livro em si é maravilhoso. A fonte usada foi ideal, as ilustrações deixam tudo muito mais bonito. Vidas Muito Boas é a personificação daquilo que chamamos de livro de cabeceira: inspira e encoraja as pessoas a correr riscos e lidarem com os próprios medos. Afinal, a vida é uma coisa relativamente simples, somos nós quem insistimos em complicá-la.

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Para Onde Ela Foi - Gayle Forman

Sinopse: Meu primeiro impulso não é agarrá-la nem beijá-la. Eu só quero tocar sua bochecha, ainda corada pela apresentação desta noite. Eu quero atravessar o espaço que nos separa, medido em passos não em milhas, não em continentes, não em anos, e acariciar seu rosto com um dedo calejado. Mas eu não posso tocá-la. Esse é um privilégio que me foi tirado.
Com a mesma força dramática de Se Eu Ficar, agora pela voz de Adam, Para Onde Ela Foi expõe o desalento da perda, a promessa da esperança e a chama do amor que renasce. (Skoob)
FORMAN, Gayle. Para Onde Ela Foi. Novo Conceito, 2013. 240p.


Esta resenha mencionará acontecimentos importantes sobre Se Eu Ficar.

Para onde ela foi acontece três anos depois do acidente do primeiro livro. A banda do Adam, Collateral Damage, é um sucesso. Porém ele perdeu o amor pela música e desenvolveu uma grande ansiedade de locais públicos, onde tem medo que o reconheçam, e está sempre fumando ou se automedicando. Ele tem uma namorada famosa, mas nunca conseguiu esquecer Mia, musa de todas as letras do álbum que fez eles estourarem. Depois de uma repórter mencionar Mia (que eles sempre conseguiram esconder da mídia) e ele surtar, o empresário diz que ele pode ficar mais tempo em Nova Iorque e ir para Londres onde eles vão ter uma turnê só na próxima noite. Nisso, Adam vai encontrar a Mia e eles vão resolver tudo que ficou inacabado.

Grande parte do livro é no passado, explicando o que aconteceu nesse intervalo de tempo, voltando ao acidente e voltando até o começo do relacionamento. Geralmente são acontecimentos não vistos no primeiro livro. Essa é a primeira continuação de um romance pelo ponto de vista do outro personagem que eu leio e, por ter tantas cenas inéditas, é diferente. Também o tempo que se passou. Não é um reconto do primeiro pelos olhos do Adam.

Eu gostei de ver tudo que o Adam está passando e em contraste também como a Mia está lidando com 1% do que ele está. Tem umas coisas bem realistas, como um membro de um grupo ou banda se tornar maior do que até a própria banda e ser odiado por isso, por mais que ele não tenha culpa. Eu adorei ver mais do que a opinião dele sobre a Mia, é muito mais fácil se identificar com ele assim, e entrar na cabeça dele, talvez até se sentir sufocado junto. Quando eu ler outro livro pelo ponto de vista do namorado, eu espero ver um pouco do que eles vivem fora do relacionamento. A gente até vê o luto dele pela família dela.

O livro tem, digamos, bem menos coisas acontecendo e menos tensão. No presente, ele passa basicamente nesses dois dias restantes dele em Nova Iorque. Por isso ele pode ser menos emocionante de ler, não sei. Eu cheguei a me preocupar que o livro estava perto de acabar e meio longe de finalizar assim, mas eu gostei do final. E o fato de eu ter pensado isso talvez seja até positivo porque o final não estava muito óbvio e o Adam e a Mia conversaram um monte, não foi aquelas resoluções de final de filme que é só fazer um gesto bonito e está tudo perdoado. Acho que o livro pode agradar tanto quem gostou do anterior tanto quem não gostou tanto, porque vi gente que gostou bem mais desse. Também, possivelmente muita gente que gostou do outro pode não gostar tanto assim desse, porque como eu disse ele é mais parado e, além disso, tirando os flashbacks, a história em si é muito diferente.

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As primeiras quinze vidas de Harry August - Claire North

Certas histórias não podem ser contadas em uma única vida. Harry está no leito de morte. Outra vez. Não importa o que faça ou que decisões tome: toda vez que ele morre, volta para onde começou; uma criança com a memória de todo o conhecimento de uma vida vivida diversas vezes. Nada nunca muda... até agora. Ele está perto da décima primeira morte quando uma garotinha de 7 anos se aproxima da cama: “Quase perdi você, doutor August. Eu preciso enviar uma mensagem de volta no tempo. O mundo está acabando, como sempre. Mas o fim está chegando cada vez mais rápido. Então, agora é com você.” Este livro conta a história do que Harry faz em seguida, do que fez antes, e do que faz para tentar salvar um passado inalterável e mudar um futuro inaceitável. (Skoob)
NORTH, Claire. As primeiras quinze vidas de Harry August. Bertrand Brasil, 2017. 448 p.


Harry August, filho de Patrick e Harriet August, nasceu por volta de 1920 na Inglaterra e não fez nada realmente incrível, não aprendeu nada de significante além do trabalho do seu pai, sendo preparado desde jovem para substitui-lo, mas isso mudou ao longo de suas muitas vidas... e mortes.

Harry é um kalachakra, um ouroborano, chame do que quiser, nada irá mudar o fato de que ele nasce, vive, morre e nasce novamente, sempre no mesmo dia, no mesmo tempo, com as mesmas condições. Nada muda. Apenas ele.

"Para que eu sirvo?
Ou para mudar o mundo - muitos, muitos mundos, cada um deles alterado pelas escolhas que faço ao longo da vida, pois ações geram consequências, e em cada amor e cada tristeza há um resquício de verdade -, ou para não fazer nada."

Como todo ser igual a ele, Harry passou por três etapas que se define em rejeição, exploração e aceitação. A primeira vida sempre é a mais fácil, mais inocente, quando você não sabe de nada, já na segunda... As memórias da sua vida anterior chegam aos poucos e, aos sete anos, nosso protagonista já se lembra de tudo, é internado num hospício, suicida-se e... revive.

Em sua décima primeira vida, esperando sua décima primeira morte num leito de hospital, uma garotinha de 7 anos aproxima-se e declama que o mundo está acabando, como sempre, só que mais rápido, e que essa mensagem está sendo transmitida através de gerações de crianças para adultos (essa parte não fez muito sentido para mim até ler) e que agora é com ele.

Enquanto tenta descobrir o que isso significa, aprendemos mais sobre os kalachakra, as vidas anteriores de Harry e o fato de que não é a primeira vez que o mundo está acabando. Ele já acabou uma vez. E se reiniciou. O mundo recomeçou do zero, alguns kalachakra se lembram e sempre lembrarão, outros perderam a memória com o tempo, alguns escolheram esquecer, outros nem nasceram.

"Eu sou mnemotécnico.
Eu me lembro de tudo.
Você precisa ter isso em mente, se quer entender as decisões que eu estava prestes a tomar."

Esse livro não é um livro infantil, não é para adolescentes nem jovens adultos, é um livro adulto, completamente adulto, mas não porque tem cenas de sexo explicito (não tem cenas de sexo, nem sugestões... não que eu me lembre), mas porque...  É um livro que nem todos vão conseguir chegar ao fim, porque disseca a humanidade, o que é ser humano, se você está sendo humano, e não tem grandes revelações, contudo algo vai sendo construindo aos poucos... que te faz pensar, refletir. E isso é sempre um perigo.

Eu falo por mim quando digo que, quando leio uma história, eu penso que estou ali, que sou o protagonista (bonzinho) e seria igual; eu seria aquela pessoa que aguenta as torturas, as dores, que faz o certo não importa o quão difícil ele é, que é uma pessoa decente, embora muitos não sejam, mas... Em algum momento, conforme você ler As primeiras quinze vidas de Harry August, você finalmente percebe que não importa o quão "decente" uma pessoa é, ela ainda é humana; ela ainda erra, ainda é corrompida, enganada, iludida; ela ainda quer mais e nunca tem o suficiente. Todos somos humanos e o que não faríamos por simplesmente nos achar no direito?


"É por vingança.
E talvez pela breve compreensão de que esse é o único jeito de recuperar algo que morreu dentro de mim. Uma noção de 'fazer a coisa certa' - como se isso ainda significasse qualquer coisa para mim."

As primeiras quinze vidas de Harry August conta todas as primeiras quinze vidas de Harry August (minha dúvida era se depois da quinze ele morre ou vive, então... leia), então é claro que é um livro minucioso, com detalhes exaustantes e fatos históricos que me fizeram pensar se são reais ou não, se não foram mudados por algum kalachakra... todavia, se você conseguir vencer todos esses obstáculos, leia, não vai te prejudicar em nada (mesmo que os fatos sejam falsos), irá apenas te acrescentar.

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